Opinião

O Isaías de Lima Barreto

O romance foi relançado no Brasil em 1917


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

O rapaz bom aluno chega ao Rio de Janeiro a fim de tornar-se "doutor". Com uma carta de recomendação de padrinho influente, ele quer conquistar a cidade grande, na época capital do Brasil. Mas as portas não se abrem, a grana acaba cedo e o moço fica numa pior. Sua situação esconde agravante do qual ele nem desconfiava, ninado que fora em círculo familiar: ele é mestiço, mulato numa sociedade racista. Falo do protagonista de "Recordações do escrivão Isaías Caminha", romance de Lima Barreto. Foi o primeiro livro do escritor carioca, que bancou do bolso o lançamento por editora portuguesa, em 1909. O romance foi relançado no Brasil em 1917. O retrato pintado do início da república não é nada lisonjeiro. Barreto critica políticos, lobistas, racistas em geral e jornalistas em particular. A caricatura por ele rabiscada revela uma imprensa elitista, arrogante e venal. O próprio Barreto frequentava redações como colaborador em umas e empregado em outras. Conhecia entranhas, interesses e decisões inconfessáveis. Por isso bateu tanto e apanhou ainda mais.

Ainda que desapercebido pelo público e ignorado pela crítica (exceção a Monteiro Lobato que elogiou o trabalho do colega), o romance tornou seu autor um inimigo dos jornalões cariocas. Seu nome foi proscrito do círculo de colaboradores. No "Correio da Manhã", por exemplo, era considerado um pária e dele nada se publicava. Tal censura a seu nome exemplificava à perfeição o que escrevera no romance a respeito dos "amigos" e "inimigos da casa", sujeitos a quem donos de jornal e editores acendiam incensos ou contra os quais arremessavam pragas, ao sabor das conveniências (e, por vezes, do montante pago).

Mas quem é o Isaías do título? Voltemos a esse recém-chegado à bela capital da novíssima república dos Estados Unidos do Brasil na virada do século 19 para o 20. Seu bom currículo escolar e as referências dadas por um chefete político regional estão longe de garantirem voos e sonhos. Sem sequer conseguir entrevista com qualquer um que lhe possa conseguir uma oportunidade, Isaías padece logo pela falta de dinheiro e perspectiva. Escapa do miserê absoluto com o trabalho provisório de contínuo (um office-boy) numa redação de jornal. A função pouco notada pelos outros permite-lhe ver, ouvir e ler o que se comenta e se escreve - e muito do que se censura. Situação inusitada e cômica garante-lhe a chance almejada: mandado pelo editor-chefe a procurar em certo endereço pelo dono do jornal, Isaías topa com cena constrangedora entre o "homem respeitável e poderoso" e uma prostituta. Percebendo no rapaz um tipo inteligente e com receio de ser chantageado, o patrão oferece-lhe a chance de "tomar notas" na redação. Isaías torna-se repórter e seu efetivo ingresso no jornalismo rende-lhe um ponto de vista ainda mais privilegiado para conhecer o que se faz e deixa-se de fazer nas redações da época.

Assim como em "Clara dos Anjos" e "Triste fim de Policarpo Quaresma", o escritor revela uma sociedade brasileira assentada no favorecimento de apaniguados, cupinchas e bajuladores, numa escrotidão pouco afetuosa e por demais agressiva. Barreto não se importou com panos quentes. Não contemporiza. Suas caricaturas são impagáveis: o editorialista que desconhece o que seja "escrever a favor", e que - quando o jornal com a troca de governo deixa de ser oposição e passa a situação - perde a capacidade de redigir; o crítico literário que não lê os livros que resenha, servindo-se da opinião e recomendação de figurões; o editor-chefe que alterna pontos de vista ao sabor do vento político.

Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, em 1881. Ingressou na Escola Politécnica, a fim de formar-se engenheiro, mas não concluiu o curso. Trabalhou como escriturário em repartição pública. Sua dependência química do álcool - na época não tratada como doença, mas como "falha de caráter" - levou-o a internação em sanatório para doentes mentais. Desse período aparecem os apontamentos para "Cemitério dos vivos", prosa biográfica. Lima Barreto morreu em 1922, no Rio de Janeiro.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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