Opinião

Voo de galinha ou de espaçonave?

A economia é comparada a um voo de galinha, sempre baixo e sempre curto


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Miguel Haddad
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Em 1941, um dos escritores mais lidos da época, o austríaco de origem judaica Stefan Zweig, publicou um livro que tornou-se best-seller mundial. O seu título: Brasil, um país do futuro. Em meio aos horrores da 2ª Guerra Mundial, o livro de Zweig era um alento de esperança que a imagem do nosso País, projetada pela obra, permitia imaginar.

Passaram-se os anos e a visão de Zweig teima em não se concretizar, a ponto de virar objeto de sarcasmo: o Brasil é o país do futuro, e sempre será, como diz o pesquisador americano James R. Kahn, traduzindo a nossa triste realidade de nação retardatária.

Por que isso acontece? Por que tantas vezes o País parece que irá finalmente alçar voo para logo perder altitude e voltar ao chão, a ponto da trajetória de nossa economia ser comparada a um voo de galinha, sempre baixo e sempre curto?

O retorno ao solo de inúmeras tentativas de voo da economia nacional tem sido uma constante, desde pelo menos o início da Revolução Industrial, no século 19, quando as iniciativas modernizadoras do Barão de Mauá foram sepultadas pelo governo imperial que baseou-se em uma teoria econômica já então superada - o fisiocratismo -, segundo a qual a agricultura seria a única fonte de riqueza.

Alternamos momentos brilhantes - como o Plano Real, que conseguiu dar fim à hiperinflação, mazela, durante anos, da economia brasileira, ou a revolução promovida pela Embrapa na nossa agropecuária - com apagões que nos levam à situação que nos encontramos hoje, desunidos, ameaçados novamente por uma hiperinflação, com indicadores socioeconômicos deteriorados.

Uma das causas dessa recorrência é a nossa arraigada resistência em aceitar as mudanças nas relações sociais - expressa atualmente de forma aguda pelo negacionismo -, um comportamento ditado por uma mentalidade ancorada no passado, contrária a mudanças, a ideias novas, que nos faz estacionar nessa condição de ser, perpetuamente, o país do futuro.

As nações retardatárias, distantes da vanguarda do desenvolvimento econômico social, resistem às mudanças resultantes desse processo, e o custo econômico e social desse retardamento torna-se a cada dia maior e de difícil superação.

E isso está acontecendo, novamente, aqui, agora.

Há uma revolução em andamento nos países centrais - muito semelhante, em alguns aspectos, a que acontecia na época do Barão de Mauá - chamada por uns de 4ª Revolução Industrial e por outros de Revolução do Conhecimento.

Alheios, como antes, a essas mudanças estruturais, ao invés de participarmos ativamente desse processo, voltamos novamente os olhos para o passado, conformados em ser um país exportador de commodities - produtos agrícolas, gados, minerais, madeira, etc. - o que nos garante a posição de nação de renda média, uma condição que limita a nossa capacidade de atender, de maneira sustentada, como os países avançados, as necessidades da população.

Essa conjunção não nos é imposta por pressão dos países centrais, mas por nós mesmos, e assim será - daí o perpétuo país do futuro - enquanto continuarmos a resistir às mudanças. A libertação dos escravos somente aconteceu aqui décadas depois de ter varrido o mundo. A aprovação da lei do divórcio tramitou por 40 anos até ser aprovada. Agora mesmo assistimos à chamada fuga de cérebros - a ida para o exterior, e isso em plena Era do Conhecimento, de pesquisadores e cientistas formados por nossas universidades - sem que essa questão sequer seja objeto de questionamentos.

Um exemplo claro dessa dessintonia é a devastação que promovemos no nosso patrimônio ambiental, destruindo biomas de valor incalculável, como a Floresta Amazônica, ou o negacionismo frente ao desequilíbrio do clima, quando poderíamos estar - como já estivemos em um certo período - na liderança da tomada de medidas que evitem o agravamento dessa formidável ameaça.

Para isso é preciso mudar, nos livrar das amarras e preconceitos estéreis do passado que nos atrasa, nos desune, e concentrar nossas forças na construção de um Brasil moderno, em sintonia com o dinamismo do desenvolvimento mundial.

Vamos, juntos, voltar os olhos para o futuro e nos empenhar na construção de um País - e um mundo - melhor para nossos filhos e netos, um País moderno, livre e democrático, sem o horror da fome e da ignorância. Esse Brasil está ao nosso alcance. Depende de nós.

MIGUEL HADDAD
é ex-deputado federal


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