Opinião

O resgate da gracilidade

Os humanos precisam de doçura para sobreviver às intempéries


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Vive-se uma era em que predomina o tosco, o grosseiro, o chulo, o medíocre e o feio. Isso na linguagem e na convivência. Desaparecem os traços elegantes de relacionamentos alicerçados na finura, que é o mesmo que finesse e que oferece a quem procure nos dicionários, um sem número de sinônimos. Dentre eles, ácie, acuidade, agalhas, agudeza, argúcia, delicadeza, destreza, diplomacia, discernimento, habilidade, ladinice, perspicácia, sagacidade, suavidade, sutileza e vivacidade, além da "gracilidade" que empreguei no título.

Os humanos precisam de doçura para sobreviver às intempéries. Estas não são apenas as consequências naturais e inevitáveis da insanidade que leva o homem a destruir seu habitat e a acelerar seu próprio fim. Mas são as vicissitudes impostas aos mortais por exacerbação de maus modos, na proliferação de ofensas, injúrias, difamações e até calúnias, veiculadas de forma intensa e incessante pelas redes sociais. Uma profusão de mau gosto em espaços reservados para a civilidade. Espaços vivenciais que deveriam primar pelo bom tom e que foram criados para tornar a existência mais harmônica e, dentro do que é humanamente possível, mais feliz.

Será que Hobbes tinha razão e que o homem é, realmente, o lobo do homem? Que a primeira inclinação do humano é liquidar o semelhante, hostilizando-o a partir da linguagem? Preocupa as consciências sensíveis, a infame volúpia do armamento geral da população, que já mostra sua malevolência na disseminação de homicídios e latrocínios evidenciadores de que o porte de arma é um convite à criminalidade, pronta a desabrochar a qualquer oportunidade.

Como já foi diversa a característica brasileira quando vigiam o respeito, a elegância no porte e no falar, a finura que foi se perdendo enquanto o sarcasmo ganhava morada em inúmeros comportamentos rotineiros. Outro dia estava a rever o poema "Errata", de Cecilia Meireles, fórmula sofisticada e serena de advertir o editor que imprimiracom erros uma de suas obras. Não se imagina algo parecido em nossos dias, tal a brandura e a ductibilidade do recado: "Depois de impresso, reparo que, embora cego, este espelho levanta uma sobrancelha a apontar meu erro claro. (Os espelhos sem reflexo guardarão sempre algum brilho para vírgula, ou cedilha ou acento circunflexo...). Como, porém, cada dia vai sendo a vida diversa, e, quanto mais fiel o verso mais infiel a ortografia pode ser que, brevemente, o espelho, nessa moldura, já não seja cego e impuro, mas certo e clarividente".

Por que não aprendemos com Cecília Meireles a ser mais atentos à nossa conduta às vezes intempestiva e ferina, para trazer ao mundo uma gota de mel, em vez do barril de fel que às vezes despejamos de forma indiscriminada?

Cecilia era mulher de extrema sensibilidade. Gostava tanto de música que, após estudar no Conservatório Musical do Rio de Janeiro, propôs-se a escrever uma ópera sobre São Paulo Apóstolo! Não chegou a fazê-la. Perdemos nós, paulistas, de contar com uma celebração a mais, e de esperada excelência, sobre o padroeiro de nossa megalópole e do nosso Estado.

Mas sabia que não podia fazer de forma tão perfeita quanto pretendia, tudo o que os seus sonhos lhe propunham. Por isso optou pelo magistério. E pelo cultivo da palavra. Não era a literatura o seu principal interesse, mas movia-a, - ela mesma conta - "uma visão da vida mais especificamente através da palavra - e isso, desde o princípio, desde as primeiras histórias ouvidas, das primeiras cantigas, dos primeiros brinquedos. Quando eu ainda não sabia ler, brincava com livros, e imaginava-os cheios de vozes, contando o mundo. Sempre me foi muito fácil compor cantigas para os brinquedos e desde a escola primária, fazia versos - o que não quer dizer que escrevesse poesia".

Cecilia era mulher apaixonada pelo que fazia e essa paixão era exercida com ternura. Isso é o que parece faltar para muitos seres racionais nestes tempos que, diante da pandemia, da miséria, do desemprego, da desfaçatez e do deboche, poderiam ser chamados de "tempos horríveis".

Releiamos Cecilia Meireles e aprendamos com ela a colocar mais poesia no mundo que pode ser bem melhor, se assim o quisermos.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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