Opinião

O senhor da argila

Assegura que o tempo da graça é sempre agora


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Maria Cristina Castilho de Andrade
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Conversava com minha amiga Marina Neto sobre transformações e ela me enviou a música "Mudei" com Kell Smith: "...Tudo muda, até as estações/ Serve de esperança aos corações. (...) Tudo o que mudou/ Me transformou no que hoje sou eu..." Lembrei-me da amiga que me disse, após cirurgia de grande porte, agora entendera de que forma Deus fala com ela.

Terminei de reler o livro "Vaso de argila" do Padre Leo Trese (1902-1970). Trata-se da história de um pároco de uma cidadezinha americana. Conta-nos um de seus dias, com suas responsabilidades e dilemas, o problema da oração em face do trabalho, as depressões, os cansaços. A certeza de que, para clarear a visão, é preciso começar o dia de joelhos. Mais em oração e menos em torno de si próprio.

Na introdução, as palavras de São Paulo: "'Trazemos este tesouro em vasos de barro', para que transpareça claramente que a superioridade da virtude provém de Deus. (...) O que pulsa neste livro é a fragilidade do coração humano alevantado pelos toques da graça, a necessidade de fortaleza buscada na oração, o murmúrio da consciência convidando ao desprendimento, à imolação, à bondade".

Alguns momentos de sua vivência me tocam, como o da comprovação de que a prece dá ritmo e sentido ao novo dia. Constata que a meditação por si só não é suficiente, mas também o exame de consciência, o refletir sobre os seus defeitos. Afirma, Leo, que a moldura não deve ser maior que o quadro e que há risco de se andar perto do mal, como se não soubesse que se encontra em território inimigo. Assegura que o tempo da graça é sempre agora: "O filho pródigo não desperdiçou tempo na viagem de regresso; Maria Madalena não esperou que a refeição terminasse para lançar-se aos pés do Senhor; o bom ladrão não adiou a sua conversão até verificar se Cristo descia da Cruz". Nada servirá os meus talentos oferecidos por Deus, diz ele, se não beber de Seu Espírito todas as manhãs.

A autor pede: "Colocai, Senhor, sobre a minha cabeça o elmo da salvação". Compreendo e peço: "Colocai, Senhor, sobre mim o elmo do Teu Amor e que se expanda ao outro".

Trese afirma que começa a sua batalha diária entre as distrações e a devoção, entre triunfos e fracassos e o escudo contra o que diz Jesus Cristo: "Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me". Ao mesmo tempo suplica perder depressa essa batalha incompatível com o Mestre.

Recorda-se de um texto de estudo: "Reservamos para nós mesmos muitos afetos, desejos, projetos, esperanças, pretensões, de que não queremos desfazer-nos para chegar a essa perfeita nudez de alma que franqueia a plena posse de Deus". Realizar a vontade de Deus resolverá os conflitos do seu coração e para isso convém que os joelhos trabalhem um pouco mais que os braços. Experimentará o bálsamo do Amor que atravessa a dura crosta de seu amor-próprio e de sua autocomiseração. O mundo tenta preencher, com coisas e modernidades, os vazios que sente longe de Deus, enquanto o Senhor nos convida a nos tornamos um instrumento dócil em Suas mãos.

Minha querida Da. Antonia Melo me contou sobre uma patroa que teve. Mãe idosa, próxima dos 100 anos. Cuidava dela de maneira que comovia. Segurando-a, levava para passear no quintal imenso com roseirais. Abaixava os galhos para que a mãe sentisse o perfume. Moldada pelos encantos de Deus.

Na última confissão e direção espiritual com o Padre Márcio Felipe de Souza Alves, Cura da Catedral, foi quem me ofereceu o livro sobre o qual escrevo, fez-me entender, em profundidade que, como vasos nas mãos do Oleiro, é Ele que sabe qual é a melhor forma a nos dar, pois se eu quiser me moldar, por mim mesma, entrego-me nas mãos de Satanás. Acrescentou que a verdadeira oblação para chegar à Eternidade é a da alma e do coração, renunciando à própria vontade.

Sou essa argila que ora endurece, ora esfarela, ora se permite esculpir, contudo o Senhor do barro que sou é Misericórdia.

Esse modelar passa pelos insucessos, becos sem saída, vielas escuras mas, sendo o caminho pelo Senhor, vale a pena pelo Céu.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista

 


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