Opinião

O monstroao lado

Diversos judeus sobreviventes de Treblinka identificaram Demjanjuk


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Fabio Jacyntho Sorge
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A série documental "O Monstro ao Lado", disponível na plataforma Netflix, merece ser vista e revista.

A produção retrata a história de John Demjanjuk que, nos anos 1980 foi preso em Cleveland (Estados Unidos), acusado de ser um sádico guarda de um campo de concentração, na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), chamado Ivan, o terrível.

Demjanjuk era um imigrante ucraniano que havia vindo para os Estados Unidos nos anos de 1950, construído a sua vida lá, como um cidadão respeitável, formou família, teve filhos, trabalhava na fábrica da Ford e frequentava a igreja.

Já estava na casa dos sessenta, quando foi preso. Como os seus crimes teriam sido cometidos contra os judeus, em campos de concentração, houve pedido de Israel, para que fosse extraditado para aquele país e lá fosse julgado.

A justiça estadunidense deferiu o pedido, sendo em 1981, a Corte do Tribunal Federal dos Estados Unidos em Cleveland cancelou a cidadania americana de Demjanjuk. Após os procedimentos legais necessários, as autoridades americanas extraditaram Demjanjuk para Israel, onde ele deveria ser julgado por crimes contra o povo judeu e contra a humanidade. Ele foi a segunda pessoa a ser julgada por tais acusações em Israel, a primeira foi Adolf Eichmann, considerado culpado em 1961, e executado em 1962.

O julgamento teve início em Jerusalém em 16 de fevereiro de 1987. A acusação alegou que, enquanto Demjanjuk era prisioneiro de guerra dos alemães, ofereceu-se para participar de uma unidade especial das SS (Schutzstaffel, i.e. Esquadrões de Proteção) no campo de treinamento de Trawniki (próximo a Lublin, na Polônia), onde foi preparado para ser assistente policial na Operação Reinhard, que era o nome do plano para assassinar todos os judeus que residiam na Polônia. A acusação afirmou que ele era o guarda do centro de extermínio de Treblinka conhecido pelos prisioneiros como "Ivan, o Terrível", e que ele havia operado e feito a manutenção do motor a diesel usado para bombear monóxido de carbono para as câmaras de gás daquele centro. Diversos judeus sobreviventes de Treblinka identificaram Demjanjuk como sendo Ivan, o terrível, a principal evidência de que ele realmente esteve no centro de extermínio.

Demjanuk, por sua vez, alegava ter sido vítima de um erro de identificação, já que também teria sido preso, mas não seria Ivan e nem teria matado ou torturado os prisioneiros judeus. Seria apenas mais uma vítima da guerra.

A série acompanha o julgamento em Israel nos anos 1980-1990, com diversas imagens da época e mais, abre espaço para que promotores, advogados, juízes, testemunhas, vítimas e a família do acusado tragam as suas versões, sem qualquer corte.

Fazendo uma verdadeira obra de jornalismo, permite que o telespectador chegue as suas próprias conclusões, sobre se Demjanuk era ou não Ivan, o terrível.

Chama a atenção, o comovente relato dos sobreviventes dos campos de concentração, bem como a difícil tarefa do reconhecimento pessoal, uma prova fundamental em qualquer julgamento em que o acusado, como Demjanuk, nega a autoria.

Afinal, os crimes a ele imputados teriam ocorrido nos anos de 1940, sendo que os reconhecimentos pessoais foram feitos mais de 40 (quarenta) anos depois, em 1987. Além disso, como fazer um reconhecimento fotográfico, tantos anos depois? Havia uma foto dele na época da 2ª Guerra Mundial, usada por testemunhas para confirmar a sua identidade, o que evidentemente é extremamente problemático, em razão da passagem do tempo.

Para além disso, os juízes ainda tinham a dificuldade adicional de fazer com que o julgamento fosse de fato, algo digno deste nome, já que pela repercussão do caso, se criou um clima para justiçamento e não justiça. A série retrata de modo muito claro que havia uma percepção de que Demjanjuk era culpado e deveria ser condenado a morte por enforcamento.

Vale ainda destacar que a pressão sobre a defesa dele era ainda maior, afinal de contas, quem o defendesse estaria traindo Israel.

Para não estragar a surpresa de quem pretende assistir, não irei dar mais detalhes do enredo, mas registro que a série traz diversas reviravoltas, fazendo com que o telespectador se surpreenda ao longo do seu desenvolvimento. É uma excelente série de julgamento e por ser documental, traz de modo real quais são as dificuldades práticas em se julgar alguém, especialmente por um fato tão antigo.

Se John Demjanjuk era ou não Ivan, o terrível, resta a cada um de nós, após assistir a série, decidir.

FÁBIO SORGE é defensor público do estado de São Paulo e coordenador da Regional de Jundiaí

 


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