Opinião

O rei do Brasil

Um bom empreendedor não precisa de dinheiro


Alexandre Martins
Elisa Carlos
Crédito: Alexandre Martins

Assis Chateaubriand foi o Rei do Brasil. Pelo menos é assim que Fernando Morais o imortalizou na construção da sua biografia. O título faz jus, afinal Chatô criou a maior cadeia de mídia do país, a primeira revista e a primeira rede de TV nacionais. Implantou a cultura de se negociar propaganda em jornais e revistas, movimentou milhões de dólares para o desenvolvimento de políticas públicas, enriqueceu a cultura nacional com o MASP. Sem julgamentos morais, o rei do Brasil é, ao meu ver, um dos maiores empreendedores brasileiros.

Do alto dos seus 1,60 metro típicos dos sertanejos da Paraíba, grande parte dos seus feitos chegam antes dos 30 anos. Lendo o livro me senti inspirada por alguns comportamentos típicos de grandes empreendedores:

Um bom empreendedor não precisa de dinheiro.

O dinheiro é útil para adquirir algum recurso. Se conseguimos o recurso, para que o dinheiro? Chateaubriand nasceu em Umbuzeiro na Paraíba e só aprendeu a socializar-se quando adolescente com os empregados da fazenda do tio rico. Em menos de 15 anos, antes dos 30 já morava numa casa de 600 m2 na av. Atlântica com dois mordomos, andava de barco, tinha uma coleção de carros antigos, viajou por toda Europa, comprou seu primeiro jornal (estou falando do prédio, da gráfica, do editorial) sem desembolsar R$ 1,00 do dinheiro que, como diria Fernando Morais, não tinha. Chatô sabia que há muitas coisas que o dinheiro não compra e que há muitas outras que não precisam de dinheiro para serem compradas. No início de sua carreira, resolvia as pendências dos influentes e não cobrava, de forma que quando precisasse de algum "favor" sabia a quem recorrer. "O importante, enquanto o dinheiro não vinha, era ir engordando o rol de amigos influentes."

Manter as verdades é o caminho do crescimento, mesmo que suas verdades mudem.

Em 1919, Chatô recebeu em sua casa os futuros modernistas de 1920: Alcântara Machado, Graça Aranha e Vilaboim. Após ler o manifesto e com o documento ainda em mãos disse sem meias palavras: "Essa semana de arte de vocês não abalará coisíssima alguma. Será no máximo uma semana de secos e molhados. Não contem comigo, que não quero me meter em nenhum bas-fond acadêmico." Mais tarde, Chatô se redimiu não com pedido de desculpas, mas com as "dentições" (edições) da revista Cruzeiros, que passaram a ser focadas no modernismo brasileiro, mesmo lhe rendendo muitos e muitos cancelamentos de assinatura.

Bom empreendedor é o incomodado que não se retira, que modifica a realidade para se encaixar. Eloy Chaves foi um dos acionistas que financiou a compra de um de seus muitos jornais. Vendo o sucesso do empreendedor, questionou-o sobre quando receberia seus dividendos. Chatô não teve dúvidas: "Minhas empresas já pagam dividendos a seus acionistas. Mas são dividendos cívicos! Cada tostão que caiu em nossos alforjes foi multiplicado, sim. E é distribuído todos os dias. Não individualmente, mas a toda a nação, através das ideias. (...) São esses os dividendos físicos, que pelo menos, por enquanto, pretendemos distribuir". Nesse mesmo ano, o lucro do "conglomerado Chateuabriand" foi de 12 mil contos de réis, equivalentes a R$ 8,5 milhões (de 1994 quando o livro foi publicado). Mas não pense que Chateaubriand embolsava esse dinheiro a bel prazer, muito pelo contrário, ele tinha uma ideia fixa: criar um conjunto de veículos de mídia nacional. E ele o fez e mesmo de forma torta manteve sua palavra e repassou, no tempo devido, os dividendos para muitos dos acionistas que participaram desse seu caminho de feitos pouco convencionais. Chateaubriand deixou tantos empreendimentos de sucesso como legado, que sua vida de Rei se confunde com a história do século 20 no Brasil.

ELISA CARLOS é mãe da Nina e da Gabi, engenheira, cozinheira e especialista em inovação.

 


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