Opinião

Mulheres jovens, maternidade e pandemia

As mulheres parecem adiar o segundo filho


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Margarethe Arilha
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Venho pensando que estaria de bom tamanho saber um pouco mais sobre como estariam funcionando hoje o conjunto de mulheres adultas jovens que estão imersas neste universo de percepções, valores e novas configurações de práticas em relação a projetos de vida, agora com o peso de uma pandemia sobre seus ombros? Quem são estas mulheres que estão mais escolarizadas, fazendo maior uso de contraceptivos e adiando a maternidade? Quais são os seus valores, projetos e desejos?

Vários demógrafos mostraram na década passada que o Brasil se constituiu em um caso interessante de fecundidade total abaixo do nível de reposição, mas sem o adiamento significativo do primeiro filho, contrariando os pressupostos da "Segunda Transição Demográfica". No entanto, as mulheres parecem adiar o segundo filho. E agora o primeiro filho. Neste cenário, a pergunta que ganha espaço é: como estariam reagindo as mulheres adultas jovens ao incremento das oportunidades de educação para si e para seus filhos? Que impactos têm sobre suas decisões de entrada no mercado de trabalho o incremento de opções para a educação infantil, especialmente considerando o importante aumento no número de unidades para atender a crianças de 0 a 3 anos de idade? Como vem respondendo os municípios a estas políticas de educação infantil? Que tipo de valores estão usando as mulheres adultas jovens em municípios que estão em crescente desenvolvimento econômico? Que tipo de argumento estão usando estas mulheres? Que pensam em relação ao lugar da maternidade em suas vidas? Como estão pensando o adiamento do segundo filho? Que planos e projetos pretendem desenvolver sobre o seu futuro reprodutivo? Que modalidades contraceptivas usam para responder a suas necessidades? Como dialogam com os parceiros afetivos para alcançar seus objetivos? Que tipo de apoio recebem destes parceiros afetivos? Que tipo de sinergias há entre o incremento das oportunidades educativas para mães e para filhos? Como isto impactaria as opções reprodutivas? Em que rumo as políticas públicas de saúde e educação devem seguir?

E agora, mais do que tudo, de que maneira estão respondendo aos enfrentamentos e conflitos que a própria pandemia vem colocando? E como os municípios estão respondendo a isso? Se por um lado os novos dados demográficos mostram uma possível redução das taxas de fecundidade, quais tem sido as opções contraceptivas escolhidas?

Para responder tais questões, seria interessante recuperar a história do Aglomerado Urbano Jundiaí. Criado através de lei publicada no Diário Oficial de 25 de agosto de 2011, representou a primeira experiência desta natureza no estado de São Paulo para populações abaixo de 1 milhão de habitantes. O Aglomerado Urbano representou uma figura jurídica, em que vários municípios legalmente aceitaram conformar uma estrutura que deverá refletir e produzir soluções regionais, em colaboração com o governo do Estado. Seus objetivos eram o de promover o desenvolvimento regional para o desenvolvimento socioeconômico e a melhoria da qualidade de vida; a cooperação entre diferentes níveis de governo, a utilização racional do território, dos recursos naturais e culturais, e a proteção do meio ambiente, mediante o controle da implantação dos empreendimentos públicos e privados da região, assim como a redução das desigualdades regionais. Através de seu Conselho de Desenvolvimento e Consultivo, assim como de suas Câmaras Técnicas, pretendeu buscar soluções para problemas comuns que enfrentariam no campo do planejamento e uso do solo, transporte e sistema viário regionais, habitação, saneamento básico, meio ambiente, desenvolvimento econômico, e atendimentos sociais, incluídos saúde e educação. (Lei Complementar n. 1146, de 24 de agosto de 2011, publicado DOE, 25 de agosto de 2011.)

Passados dez anos, qual teria sido o legado deixado para as crianças nascidas em 2011 e que deveriam ter que usar as creches municipais na ocasião? Um bom momento de análise para pensar as atitudes atuais das mulheres jovens sem filhos e que duvidam da capacidade de confiar no Estado para a educação na primeira infância de seus filhos.

O AGU fez diferente?

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp

 


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