Opinião

Conviver com a saudade!

A saudade é a força que deseja manter a presença da pessoa amada


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ARTICULISTA DOM VICENTE
Crédito: .

"Deus é testemunha de
que tenho saudades de
todos vós..." (Fl 1,8).

Caros leitores e leitoras: quem nunca sentiu saudade? Quem nunca falou: "Ah! Que saudade!"? Este sentimento faz parte da nossa vida e da nossa história. Carregamos conosco recordações de pessoas, lugares, situações, momentos e acontecimentos. Às vezes, essa saudade nos faz bem, mas às vezes nos machuca tanto, que o coração chega a doer. É verdade que de um jeito ou de outro, em algum momento, todos nós passamos por esta experiência que mistura passado e presente de um modo um tanto misterioso.

Existem inúmeras canções, poesias e reflexões acerca deste tema. Recordo-me de uma música antiga, de uma cantora bem conhecida no Brasil, que o aborda como sinônimo de um sentimento triste pela perda. A música se chama: "Meu primeiro amor", e assim diz sua letra: "saudade, palavra triste, quando se perde um grande amor. Na estrada longa da vida eu vou chorando a minha dor". Seguramente, a cantora tem suas razões e inspirações para cantar de modo tão forte, destacando o sofrimento e a dor causados pela ausência do ser amado. Sobretudo, quando se tem um grande amor, sente-se saudade o todo tempo, pois, esse sentimento vai além da perda, do ganho, da ausência, da presença, da distância ou da proximidade, de modo que estando ou não estando com aquela pessoa amada, naquele lugar, naquele momento, naquele acontecimento, pode-se, sim, ser surpreendido pela saudade.

Então o que é a saudade? Poderíamos elencar centenas de respostas à luz da fé, das ciências humanas e à luz da experiência de cada um e de cada uma. Acredito que ela esteja ligada ao desejo humano e existencial de prolongarmos experiências belas e inesquecíveis que são bem vividas ao longo da nossa vida. É como se a nossa humanidade não quisesse romper, nem por alguma fração de segundo, com aquilo que foi profundamente significativo e positivo para a nossa vida. Por isso, penso e vejo a saudade como uma força que deseja manter a presença de uma pessoa amada e amiga sempre presente.

Quantas e quantas vezes já ouvi de familiares e amigos de pessoas que já partiram deste mundo a seguinte frase: "Nossa que saudade! Sinto uma saudade que chega a doer. Parece até que nem vou aguentar esta falta, pois a saudade que sinto está me matando". Mesmo neste contexto mais emblemático da saudade, ainda podemos vislumbrá-la como uma experiência bonita, pois, sem qualquer sombra de dúvida, a saudade é sim filha do amor. Só sente saudade quem ama. E por isso ela sempre será bela e profunda.

Vale a pena perguntarmos a nós mesmos: "como lidar com a saudade?" Primeiramente, penso que precisamos assumir a saudade que carregamos conosco em cada momento de nossa vida como ela é. Precisamos presentificar esse sentimento, trazendo para cada momento de hoje, os abraços, as comemorações, as recordações, os nossos sonhos, as lágrimas de emoção e de alegria por cada passo que foi sendo dado nesta longa estrada da vida. E é preciso alimentar também o coração com as boas recordações de todas as etapas da nossa vida e com todas as pessoas que fizeram e fazem parte dos nossos laços e vínculos de afeto.

Portanto, viver a saudade é também reviver tudo o que se tornou um marco em nossa trajetória existencial. Um jogador de futebol, com seus oitenta anos de idade, não terá mais condições físicas de marcar os gols que marcava com a vitalidade da sua juventude, mas poderá reviver os incríveis gols do passado numa viagem pelo tempo, através da força de suas lembranças e recordações. De maneira que é sempre possível viver bem mesmo com todas as nossas lembranças, na medida em que, com sabedoria e paciência, conseguirmos um grande feito, ou seja, a grandeza de alma em conviver com a saudade!

DOM VICENTE COSTA

é bispo diocesano de Jundiaí


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