Opinião

Senzafine

"Senza Fine" me fez pensar qual será o fim da realidade brasileira


Divulgação
Jose Renato Nalini
Crédito: Divulgação

Na pandemia, acostumei-me com o Spotify e com a Netflix. Escolhe-se o que se quer ouvir e ver. Um hiato espiritualmente confortável à indigência nos altos escalões, uma pausa na constatação de que a miséria cresce e as respostas políticas, politiqueiras são...

Numa dessas manhãs em que procuro exercitar o velho corpo numa esteira, escolhi músicas românticas italianas antigas. E fui surpreendido ao me emocionar com "Senza Fine", interpretado por Andrea Bocelli num show ao vivo, provavelmente em Portofino.

Tão significativa a música, a suscitar vontade de ouvi-la seguidas vezes. E com outros intérpretes, como Gino Paoli, Chiara Civello, Ornela Vanoni, Monica Mancini e até a nossa Zizi Possi. "Não importa a lua, não importam as estrelas...".

Em seguida, transportei-me para a adolescência em Jundiaí, quando ouvia "Parlami d'amore Mariú", em casa de Umberto Scarparo, ouvia Wagner Moraes Oliveira cantar "Sapori di Sale", as nossas versões de "A Casa D'Irene" com Nico Fidenco no original e nosso amigo Gaetano Parise naquela que inventamos. Depois, lembrei da presença de Gianni Morandi no restaurante "Balaio", numa das saudosas festas das "Dez Mais". Tempos que não voltam mais.

"Senza Fine" me fez pensar qual será o fim da realidade brasileira, hoje tão angustiante por uma série de razões. Inflação com dois dígitos voltando, a pandemia a escancarar a miséria, a política partidária mais interessada em cuidar de eleições e acrescer recursos ao Fundo Partidário. O Judiciário, em lugar de um saudável enxugamento, pois a praga veio mostrar que já não são necessárias tantas edificações, gabinetes e outras estruturas, cria mais um Tribunal Regional Federal em Minas Gerais.

O pior de tudo é o que se faz com todos os nossos biomas. A Amazônia nunca foi tão devastada quanto aconteceu nestes dois últimos anos. O incrível acontece no Brasil: incêndio no Pantanal! A região alagada, que era o paraíso dos pescadores e destino dos turistas estrangeiros em busca do exotismo tropical, incendiou-se. Dizimadas flora e fauna.

A Mata Atlântica, a mais ameaçada, embora igualmente protegida de maneira especial pela Constituição Cidadã. O planeta inteiro pensando no aquecimento global, o maior perigo já enfrentado pela humanidade nestes milênios de história, e o Brasil continua a ser leniente com grileiros, incendiários, ocupantes de terras indígenas e dendroclastas.

O secretário-geral da ONU, o português António Guterrez, fez um candente alerta, que chamou de "vermelho" na reunião da entidade em Nova Iorque. A catástrofe está próxima. "O mundo está à beira do abismo e caminha na direção errada". Qual a repercussão nesta Terra de Santa Cruz?

Conforta verificar que Joe Biden leva a questão ecológica a sério. E que John Kerry está zeloso a cobrar dos Estados que integram a Organização das Nações Unidas suas drásticas medidas para reduzir a emissão de gases venenosos, causadores do efeito-estufa, que abriu imensa brecha na camada de ozônio.

Também devolve esperança aos mais sensíveis, verificar que os maiores empresários brasileiros vão levar a Glasgow, na Escócia, no próximo novembro, o manifesto para mostrar que há brasileiros empenhados em defender o maior patrimônio nacional: sua floresta tropical, sua água-doce, a sua exuberante biodiversidade. Querem mostrar que o Brasil pode deixar a vexaminosa condição de "pária ambiental", para recuperar o seu protagonismo evidenciado na década de setenta, quando Paulo Nogueira Neto colaborou na elaboração do conceito de sustentabilidade.

Tomara ainda haja tempo de convencer os investidores internacionais, detentores de cerca de setenta trilhões de dólares, de que o Brasil é o destino adequado para projetos de descarbonização. Oxalá sejam convencidos a auxiliar o reflorestamento, eis que faltam oito trilhões de árvores para a recomposição da mata nativa mínima. Sem ela, continuará a falta água e quando falta água, falta vida.

"Senza Fine" parece traduzir a sensação de que o combo de crises não tem mesmo um termo final em perspectiva. Mas, como diz a sabedoria vulgar, "não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe". Um dia o Brasil vai voltar à rota que percorria até há pouco e os millenials, os nativos digitais, terão motivo de se orgulhar de seu berço natal.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras 2021-2022

 


Notícias relevantes: