Opinião

Quanto custa andar a pé?

Calçadas estão fora da mira da conservação para garantir a segurança plena


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Eduardo Pereira
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Calçadas estão fora da mira da conservação para garantir a segurança plena dos usuários. Alguns lugares, modelos de acessibilidade, demonstram que o intenso uso de pedestres torna o espaço público mais vivo. O que deveria ser o padrão normal para toda a cidade, ainda é exceção. Leis estão sendo criadas pra que isso aconteça, mas o investimento, fiscalização e manutenção para garantir o ir e vir do pedestre está longe de acontecer plenamente, pois não está no foco central de investimentos.

Para avaliarmos o estado de arte da mobilidade em Jundiaí, seus sítios, suas bases, valemo-nos de um levantamento de 2014, que tem dados muito esclarecedores e que já apontavam:

Condutor de automóvel - 421.622 viagens - 24,8%; a pé - 380.550 viagens - 22,4%; ônibus municipal - 284.268 viagens - 14,6%; passageiro automóvel - 174.464 viagens - 10,3%; ônibus fretado - 128.895 viagens - 7,6%; transporte escolar - 108.001 viagens - 6,4%; ônibus intermunicipal - 91.767 viagens - 5,4%; moto - 69.960 viagens - 4,1%; bicicleta - 24.331 viagens - 1,4%; trem - 17.152 viagens - 1%; táxi - 7.379 viagens - 0,4% e outros - 7.200 viagens - 0,4%.

Na contramão dos investimentos, surpreende o número de pedestres que se locomovem em caminhadas para o trabalho ou para circular na liberdade que as calçadas oferecem. Esse modo de locomoção vem aumentando consideravelmente, contando com 22,4% das locomoções pela pesquisa Origem e Destino de 2014.

Desde 2020, a pandemia exigiu a mobilização a pé por todas as circunstâncias do isolamento e dos protocolos sanitários. Entretanto, o levantamento está defasado e não foi contabilizado esse acréscimo de movimento e aqueles dados da pesquisa perderam referência para novos projetos.

Com a crise e desemprego, os então 22% de pessoas que faziam a pé seus percursos deve ter aumentado muito, além de boa parte da população não ter condição de gastar em passagens. Longas caminhadas vêm sendo observadas. Se em asfalto e outras melhorias se colocam hoje tantos milhões, as calçadas não tiveram a mesma sorte.

Naquela pesquisa, condutores de automóveis fizeram mais de 421 mil viagens enquanto os percursos a pé foram contabilizados 380 mil. A maioria dos trajetos apresentava o uso de veículos individuais e esse dado alimenta o planejamento da cidade, já que se privilegia esse meio de locomoção como absoluto.

Investimentos são feitos para garantir fluir o trânsito e sua manutenção com renovações dos asfaltos e em todas os logradouros onde circulam, agora atingiram as estradas vicinais rurais. Buracos no asfalto nem pensar! A cidade está perfeita, mas e os buracos nas calçadas?

Com a evidente preocupação da Unidade de Gestão de Planejamento de Jundiaí, identificam-se os desníveis gritantes e as irregularidades. Na reforma das calçadas na rua do Retiro, mostram as qualidades aderentes das calçadas, mas mostram também que o investimento ali tem que partir dos comerciantes, o que é certo, mas não vejo como usar os recursos de compensação de EIV, que deveriam estar submetidos aos Conselhos para avalizar a inversão desses recursos raros, em projetos de calçadas. Lembramos que a rua do Retiro se destaca pelos melhores comércios que ali se localizam. E são esses comerciantes os maiores interessados e beneficiados.

Outra ótima iniciativa é o da valorização dos percursos a pé para crianças, mas os processos estão circunstanciados em volta das escolas que irão valorizar o caminho que percorre entre a casa e a escola, muito embora beneficiarão em tabela todos os que precisam andar por esses roteiros.

Rotas do Centro Histórico precisam ser contempladas com a revisão e manutenção das calçadas mesmo as estreitas nas ladeiras de acesso ao Centro.

O que tem que ser considerado para identificar os roteiros desses pedestres além da origem e destino são os outros possíveis caminhos alternativos, que normalmente são os mesmos dos grandes fluxos dos carros. Encurtar distâncias para pedestres é exigência legal, mas em bairros consolidados isso precisa ser construído, não pode ser apenas o mesmo percurso do automóvel. É preciso eliminar do ambiente e do pavimento todas as possibilidades de traumas e acidentes.

EDUARDO CARLOS PEREIRA

é arquiteto e urbanista

 


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