Opinião

Desculpe, mas você não é jornalista

você não vira repórter só porque filmou um fato e publicou nas redes


Alexandre Martins
Felipe dos Santos Schadt
Crédito: Alexandre Martins

Sou professor de jornalismo em uma instituição aqui da região e na última quarta-feira, na disciplina de Redação Jornalística, eu dei uma aula (a terceira) sobre o assunto "apuração". Uma das minhas falas mais contundentes foi sobre a importância de se apurar um fato antes de torná-lo público. É a chave de ouro do jornalismo, o primeiro mandamento da tábua da lei das redações.

No meio dessa explicação acalorada, uma aluna pediu a palavra. "Professor, mas eu vejo muito jornal por aí, principalmente da região, que posta várias coisas nas redes sociais sem apurar... tudo pra ganhar like", disse ela.

Eu não pude deixar de concordar que essa prática existia (infelizmente). A aluna reforçou sua observação com um exemplo que ela presenciou recentemente. Um desses jornais que atuam exclusivamente nas redes sociais deu informações erradas sobre um acidente que ocorreu em um ponto de ônibus em Campo Limpo Paulista no mês passado. "O jornal soltou que uma mulher havia morrido no acidente, quando na verdade não. Faltou apurar", disse ela com aquele brio no olhar típico de uma jornalista inquieta.

Coincidentemente (ou não), dias depois da aula, me deparei com uma postagem de um jornal nas redes sociais. Na postagem, eles publicaram um vídeo de uma pessoa sendo agredida por sete homens. Segundo o único parágrafo sobre o assunto, o rapaz era um suposto ladrão de motocicletas. Na sequência uma frase do jornal: "Aconteceu algo? Mande para nós, aqui você também vira repórter!". Isso me incomodou absurdamente.

Acho válido pensarmos em uma democratização da comunicação. É um assunto importante e todos e todas deveriam sim ter condições de criarem notícia. Porém, essas condições nunca são ofertadas. O que existe é apenas um estímulo para geração de engajamento virtual utilizando mão de obra despreparada para o ofício. Esse estímulo diz o seguinte: "filme, mande pra gente, iremos postar sem apurar e ganhar uns likes a suas custas".

E não, você não vira repórter só porque filmou um fato e publicou nas redes. Há um abismo de diferença entre fazer isso e ser repórter. Desculpe te decepcionar, mas você não é jornalista. Pode ser um dia, mas não dessa forma. Imagine um dia um hospital dizer: "Traga seu bisturi e venha operar com a gente. Aqui você também é cirurgião". Absurdo né? Pois é.

A apuração é o que nos separa [jornalistas] de pessoas com um celular na mão. Enquanto você filma, posta e espera pela repercussão, profissionais da imprensa têm o dever de apurar uma informação antes de publicá-la. E quando digo dever, é do imperativo que estou me referindo. Não há possibilidade de um bom jornalismo sem isso.

O que práticas como essa fazem é acostumar um público que já está acostumado a ler pouco a ler menos ainda. E pior, compartilhar informações imprecisas, fertilizando o terreno das fake news. Na postagem do jornal que eu menciono, não há nenhuma apuração, apenas cenas de violência gratuita.

"Está defendendo bandido, Felipe?"

Então. Não. Primeiro porque eu não sei se ele é ou não um bandido de motos. E sabe como eu saberia se ele é? Se a reportagem, antes de postar o acorrido, apurasse e desse informações concretas sobre o fato.

"Mas o jornal disse "suposto ladrão", isso não é suficiente?"

Não! Porque nem essa informação foi apurada. E se na verdade o vídeo mostrasse uma violência decorrente de uma briga causada por outro motivo? O cara pode ser realmente um bandido, mas não tem como saber porque não houve jornalismo nesse caso. E quando um jornal posta algo, espera-se que a informação tenha sido apurada antes, para justamente não gerar dúvidas.

Como leitor, o que eu gostaria de ter encontrado era: O que aconteceu?; quem está envolvido?; onde aconteceu?; quando aconteceu?; por que aconteceu?; como aconteceu?. A pessoa que filmou o fato realmente não tinha a obrigação de me responder isso (afinal ela não é jornalista), mas o jornal sim.

A função da imprensa é mostrar a verdade. Sem apuração não se trata de jornalismo, se trata de boatos. E eu acho que você já entendeu que sem o nosso trabalho, os mitos seriam lei e a verdade escassa.

Conhecimento é Conquista!

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP

 


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