Opinião

Nosso tempo, a bordo de uma limusine

A personagem tem frases reflexivas e nos leva a pensar no cassino global


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA RAFAEL AMARAL'''''
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Há filmes que captam com perfeição o estado do mundo no tempo em que foram feitos. Na verdade, é provável que eles nunca teriam nascido não fosse o reflexo político e social do meio, como é o caso de obras-primas como "M, O Vampiro de Dusseldorf" (nazismo) e "Casablanca" (Segunda Guerra Mundial), para ficar em exemplos conhecidos.

Quanto ao nosso tempo, há três exemplos fáceis e recentes, muito discutidos na ocasião de suas estreias: "Parasita", "Coringa" e, no Brasil, "Bacurau". Todos falam, por caminhos diferentes, das tensões entre classes sociais e de pessoas à margem tentando resistir. São potentes. "Filmes com mensagem", como se costuma dizer, e sem saídas fáceis.

Outros exemplos não tão recentes me atraem mais. Um deles é "A Rede Social", de David Fincher, que faz par interessante com o trabalho seguinte do mesmo diretor, "Garota Exemplar". O primeiro trata do nascimento do Facebook, da geração que dominou o mundo ao usar algoritmos para dar a impressão de que todos estão convidados a um clube sem mensalidade. Desde uma conversa de bar, tudo no filme é rápido e passageiro.

Já a tacada seguinte de Fincher revela-nos o resultado prático dessa nova dimensão nada social em que tudo se converteu em embalagem. "Garota Exemplar", a começar pelo título, é sobre falsidade, sobre uma moça "recatada e do lar" que trama a própria morte quando se cansa da vida em uma casa de bonecas. Não, claro, sem destruir o marido, logo o principal suspeito do crime. Não sem tramar sua própria reinvenção.

Fincher descortinou essa sociedade de psicopatas à espreita mais de uma vez. Quando se trata de compreender o espírito do tempo, o realizador de "Seven", "Clube da Luta" e "Zodíaco" tem poucos rivais à altura. Pelo menos no cinema moderno. Um deles é David Cronenberg, responsável por aquele que talvez seja o melhor filme para entender o mundo atual: "Cosmópolis", de 2012, baseado em um livro de Don DeLillo.

A bordo de uma limusine, acompanhamos um dia na vida de um jovem magnata e apostador da Bolsa de Valores, Eric Packer, interpretado por Robert Pattinson. Ele precisa atravessar a cidade para cortar o cabelo. No mesmo dia, a metrópole está agitada com a visita do presidente dos Estados Unidos. Protestos, barulho, gente fantasiada de rato.

Cortar o cabelo parece algo simples demais para alguém com muito dinheiro. Packer tem seus motivos para escolher um cabeleireiro específico. À medida que a limusine avança, o todo-poderoso recebe diferentes visitantes, como um hacker, uma prostituta, um médico - que examina sua próstata e conclui que é assimétrica - e a consultora de Samantha Morton.

Cronenberg medita sobre estes novos tempos de novos líderes, de gente que comanda a vida de muitos e dita os rumos do mundo em sua aparente segurança, a bordo de uma limusine que mais parece o interior de um supercomputador, uma máquina do tempo, um caixão. Um veículo à prova de som, feito sob medida a um mundo em movimento no qual o rato, como diz a frase de abertura, tornou-se uma unidade monetária.

A personagem de Morton tem frases reflexivas e nos leva a pensar o tempo todo nas consequências do cassino global. A começar pela ideia de narrativa. "O dinheiro perdeu sua qualidade narrativa, como a pintura já perdeu", diz ela. Ou seja, perdeu forma, está em todos os lugares e em nenhum; tornou-se um código de computador.

Packer é alguém aparentemente incapaz de sentir empatia. Nesse dia definitivo, ele é avisado pela mesma consultora que o tempo não é mais dinheiro no mundo que ajudou a criar. O jogo inverteu-se, a narrativa mudou: é o dinheiro que produz o tempo, a ideia de algo que avança incessantemente até a bolha estourar e alguns pobres ficarem mais pobres, ou miseráveis.

Entre as ruas e o interior da limusine há um abismo. Cronenberg - que compreendeu os anos 1980 com "Videodrome" e os 1990 com "Crash: Estranhos Prazeres" - não faz concessões, lança novas ideias a cada segundo e escancara a encrenca na qual nos metemos.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com


Notícias relevantes: