Opinião

Jundiaí é uma smart city?

Jundiaí tem condições de ser uma cidade inteligente


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Jose Renato Nalini
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Um dos efeitos benéficos da pandemia é o protagonismo dos governos subnacionais, principalmente o município. Uma Federação assimétrica e complexa como o Brasil precisa comprovar que a escolha do constituinte de 1988 foi exitosa. Quais são as Repúblicas existentes no planeta que consideram a cidade um ente federativo, ao lado da União e dos Estados-membros?

A questão ganha ênfase e relevância quando o governo federal parece desconhecer as urgências e necessidades dos brasileiros, que emergiram de forma dramática durante a peste.

Escancarou-se a existência dos invisíveis. A miséria alastrou-se. A pobreza atingiu a classe média. A inflação voltou e já está em dois dígitos. Enfrenta-se a mais grave crise hídrica em um século. As florestas continuam incendiadas, com estímulo de quem é pago pelo povo para zelar por elas. Os indígenas continuam na rota da extinção. A grilagem, o garimpo ilegal, a violência e o uso indiscriminado de armas são negócios muito prósperos.

Nesse panorama, a cidade precisa mostrar-se um território seguro e garantir a seus moradores o mínimo de segurança e da tranquilidade possível na turbulência que a polarização incrementa.

Embora tenha crescido demais, porque é espaço privilegiado, provido de boas rodovias e de um aeroporto que serve para aeronaves de pequeno porte, Jundiaí tem condições de ser uma cidade inteligente. Isso significa ser uma cidade sustentável.

Tem de tomar cuidado com as veias abertas na vegetação que deveria não só ser preservada, mas ser aumentada. Não vejo projetos de recomposição das feridas feitas na Serra do Japi e em outras reservas. Um Brasil que tem falta de oito trilhões de árvores, precisa que cada um dos quase seis mil municípios faça a sua parte.

Não vejo estímulo a que crianças aprendam a semear, a fazer mudas, a cuidar de áreas ociosas para formar pequenos bosques. Não vejo incentivo a que os jardins sejam premiados e que o reflorestamento, ainda que em reduzida escala, gere benefícios para o cidadão que se mostrar sensível em relação à natureza.

Quantos os córregos que mereceram replantio de mata ciliar? Quantos aqueles que foram sepultados para dar lugar ao automóvel foram recuperados? Jundiaí teria tudo para propiciar uma educação ESG desde o ensino fundamental, que é obrigação prioritária do município.

Uma urbe como Jundiaí poderia ter um projeto especial para requalificar os professores. Daniel Castanho, presidente do Conselho da Anima Educação sistematizou o que venho pregando há muitos anos. O professor de hoje não é mais aquele detentor do monopólio do conhecimento. Para ele - e para mim - "sua função é provocar, despertar o interesse dos alunos, acompanhar sua jornada de aprendizagem. O professor do futuro está mais próximo de um educador socrático, aquele que orienta os aprendizes nas suas investigações, de acordo com seus respectivos interesses".

É urgente uma profunda alteração estrutural da escola. "Precisamos substituir a velha noção de sistema de ensino - um circuito fechado, centrado naquilo que a escola ensina - por "ecossistemas de aprendizagem". Refiro-me, com isso, a uma concepção mais holística de educação, a ambientes estimulantes e acolhedores que oferecem ao aluno ferramentas com as quais ele próprio construirá seu conhecimento".

Algo que é inimaginável na esfera estadual, em que a Secretaria da Educação se transformou em paquidérmica repartição burocrática, responsável por quatrocentas mil almas por ela remuneradas, numa centralização que impede se planeje o futuro das novas gerações, para focar avaliações que impeçam que o Estado faça má figura no ranking nacional.

Por isso negligencia-se o cultivo das competências socioemocionais, pouco se interessando a escola pela felicidade do aluno, desde que seu adestramento garanta que ele saiba decorar e depois repetir o que decorou nas pífias, previsíveis e inócuas avaliações, cada vez mais frequentes.

Jundiaí teria tudo para ser um exemplo para o Brasil. Mas para isso é preciso vontade. E coragem. Será que se dispõe desses ingredientes tão raros em nossos dias?

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022

 


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