Opinião

O poeta da liberdade

Até a chegada à cidade, feita por trem, de Santos a São Paulo, inspira o poeta


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Professor Fernando Bandini
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Há 150 anos, em 1871, o Brasil perdia um de seus maiores poetas. Morria a 6 de julho Antônio Frederico de Castro Alves, imortalizado como o "Poeta dos escravos". Como poucos no Brasil, Castro Alves encarnou a figura do bardo intempestivo e talentoso. Sua passagem por São Paulo, no ano de 1868, foi determinante para sua vida pessoal e profissional. Mas vamos por partes. "O poeta da liberdade", livro de Vicente de Azevedo, escritor e membro da Academia Paulista de Letras, conta de maneira apaixonada a trajetória do poeta baiano. Publicado em 1971, por ocasião do centenário de morte do autor de "Vozes d'África", o volume era uma edição do Clube do Livro, inovadora iniciativa de difusão cultural que lançava livros de qualidade a preços reduzidos. Um dia falo das publicações do Clube do Livro. Por ora, volto a Castro Alves.

Nascido na Bahia, no então distrito de Muritiba (hoje rebatizado de Castro Alves), em 14 de março de 1847, Antônio Frederico - apelidado de Cecéu por seus familiares - teve infância tranquila, de garoto branco e abastado, filho de família influente e de recursos. A existência venturosa sofre abalo quando da morte da mãe, dona Clélia Brasília, em 1859. O futuro poeta tinha 12 anos. Com a família vivendo em Salvador, o pai matricula-o no afamado colégio do professor Abílio César, futuro barão de Macaúbas, onde foi colega de turma de Rui Barbosa. Em 1862, aos 15 anos, está em Recife, a fim de matricular-se na Faculdade de Direito. Fracassa em dois exames de ingresso. Matricula-se finalmente em 1864. Mais inclinado a festejar do que a estudar, Castro Alves dedica-se à poesia e à vida boêmia. Em 1866, perde o pai, Antônio José Alves. Emancipado, dispondo de quinhão da herança paterna, Castro Alves inclina-se ainda mais à poesia. Nesse mesmo ano, começa o turbulento e decisivo relacionamento com Eugênia Câmara. Atriz portuguesa, dez anos mais velha, Eugênia é um divisor na vida do poeta. O casal muda-se em março de 1868 para São Paulo. Ele se transfere para a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Ainda que em turmas diferentes, alguns notáveis estão no mesmo curso nesse ano:Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Juca Paranhos (depois Barão do Rio Branco), e os futuros presidentes da república Rodrigues Alves e Afonso Pena.

Castro Alves enturma-se logo e encanta-se com a cidade. Até a chegada à cidade, feita por trem, de Santos a São Paulo, inspira o poeta. Era sua primeira viagem naquele meio de transporte pioneiro, exemplo de tecnologia avançada. No seu poema "O livro e a América" escreve a respeito do trem: "Fazei desse rei dos ventos/-- Ginete dos pensamentos/-- Arauto da grande luz".

Na capital paulista, conhece Paulo Eiró, abolicionista ferrenho, dramaturgo e poeta, cuja obra influencia o baiano. Em abril desse ano, Castro Alves escreve "O navio negreiro - tragédia no mar", seu mais famoso libelo contra a escravidão. Em junho, redige "Vozes d´África", outro clássico, assim como "A mãe do cativo". No segundo semestre, vêm à lume "As três irmãs do poeta", "O adeus à Teresa", "Adormecida", "Ashaverus e o gênio". Trabalha com afinco nos seus versos, descurando-se do curso de Direito. A Serra do Mar inspira-o, ainda, para trecho de "Os Escravos", um longo projeto inacabado de livro. No final do ano, sua peça "Gonzaga" é encenada com enorme sucesso de público e crítica. José de Alencar e Machado de Assis reconhecem seu talento. Mas se o barco da arte seguia bem, na vida pessoal soprava vento contrário. A relação com Eugênia sofre constantes atritos, com crises de ciúmes dele e dela. No final do ano, ocorre a ruptura definitiva, o que abala profundamente o poeta. Mais problemas: num passeio pelos brejos do Brás (!), em caçada organizada por amigos para que o poeta espaireça, ao saltar um córrego, a arma dispara acidentalmente e atinge seu pé. O ferimento é grave e a situação, crítica. Seu pé é amputado. A saúde piora, agravada por tuberculose. Vai para o Rio de Janeiro e depois para a Bahia. Morre em julho de 1871, em Salvador, aos 24 anos, reconhecido como um dos grandes poetas brasileiros.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio

 


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