Opinião

Autoestima feminina: Por que a insegurança?

A beleza é única, singular e deve ser valorizada dessa maneira


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Yara Schowantz
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Nossa sociedade está pautada na divisão de tarefas entre homens e mulheres, onde na maior parte das vezes, a mulher fica responsável pelos cuidados. Cuidados com a alimentação de toda família, manutenção e organização da casa, compromissos escolares, sociais e saúde dos filhos. E, muitas vezes, essas atribuições independem do fato de termos ou não um emprego fora de casa. E então, nós mulheres crescemos nessa sociedade que impõe todas essas atribuições ao mesmo tempo que duvida de nossas capacidades.

Ao menor sinal de falha estamos "loucas" de "tpm" ou "somos fracas" e isso acaba nos levando a naturalizar e aceitar o acúmulo de tarefas absurdamente pesado em nosso cotidiano.

Esse é um dos fatos que podem afetar a autoestima feminina, deixar as mulheres inseguras, ansiosas e muitas vezes infelizes com sua própria imagem.

Mas há um interesse cultural e social por trás dessas emoções: Alguém está lucrando com essas inseguranças.

A forma como nos percebemos influência todos os aspectos da nossa vida e a autoestima é o elemento regulador da nossa relação com o mundo, ou seja, nossas respostas frente às questões da vida estão ligadas a forma como nos enxergamos.

A autoestima carrega consigo valores pessoais e de competência, que são interpretadas conforme o julgamento pessoal que fazemos de nós. Sentimos a autoestima mais ou menos elevada ao longo dos dias, e muitas vezes rebaixamos nossa autoestima quando nos comparamos ou exigimos muito de nós mesmas.

A propaganda que é direcionada às mulheres opera através da depreciação da autoestima e o lucro do mercado vem da nossa insegurança, principalmente em relação a nossa autoimagem. Sempre achamos que precisamos desse ou daquele produto para nos tornarmos mais bonitas, mais jovens ou sem eles nossa aparência pode ficar comprometida.

Assim, sentimos desconforto com nosso próprio corpo e projetamos nossos ideais de aparência em corpos que nada tem a ver com nossa realidade.

É interessante pensar em começar um processo de conscientização de que a beleza é única, singular e deve ser valorizada dessa maneira. Pode não ser um caminho fácil, mas podemos começar cultivando o amor próprio em pequenos atos diários, insistir em direitos iguais, ler, conversar com outras mulheres, buscar aceitar e amar nosso corpo pois é nele que habitamos.

Mudar a forma de nos olharmos nos fortalece diante de todas as inseguranças e imposições sociais. Assim, não precisaremos mais esperar ter um "corpo de praia" para ir à praia, bastará ter um corpo.

Desde a infância estamos em contato com estímulos que nos levam a internalizar padrões de beleza e imagem, como bonecas e brinquedos que reproduzem o que é socialmente entendido como belo. Esses estímulos continuam pela vida adulta, quando vemos as supermodelos, atrizes e a imensa quantidade de produtos estéticos e alimentos "milagrosos" que prometem te transformar naquele padrão de mulher com seios "perfeitos" e nariz arrebitado.

Por sorte, nós mulheres estamos cada vez mais pensando e discutindo sobre o quanto não aceitarmos nossos corpos e aparência pode prejudicar a nossa saúde física e mental. Mas ainda não é suficiente. Apesar dos debates, somos um dos países que mais realiza procedimentos estéticos no mundo e temos um elevado número de casos de distúrbios alimentares e de imagem, que muitas vezes se iniciam na infância e adolescência.

Com certa frequência vemos notícias de mulheres que se submetem a procedimentos estéticos com profissionais inadequados e colocam em risco suas vidas. Isso é grave e precisamos falar mais sobre isso, refletir sobre porque temos tanta dificuldade em aceitar nossos corpos, porque muitas vezes odiamos nossa aparência e porque gastamos tanta energia e recursos em busca um padrão de beleza que nem sequer escolhemos, nos foi imposto.

É preciso pensar sobre tudo o que está por trás da nossa insatisfação com nosso corpo, reconectar corpo e mente, cuidar da saúde mental, trabalhar a aceitação e o amor próprio.

Não há nada de errado em cuidar da aparência, não há nada de errado em querer mudar algo que não te deixa feliz, mas é interessante pensar porque e para quem estamos fazendo essas escolhas e aprendermos a apreciar e amar a aparência que temos quando vemos nossa imagem no espelho sem idealizar padrões estéticos.

Yara Schowantz é psicóloga clínica, mestranda em Saúde Coletiva

 


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