Opinião

A "alma" dos órgãos

O coração é a sede do Shen, que na psicologia reconhecemos como ego


Alexandre Martins
Alexandre Martin
Crédito: Alexandre Martins

Dentre as postagens mais acessadas no meu Instagram nestes tempos está aquela onde comento sobre a visão da medicina tradicional chinesa (MTC) sobre a mente humana. Por esta visão, a mente humana não é produto de elucubração cerebral ou algo fabricado exclusivamente pelo sistema nervoso.

A mente do indivíduo, segundo a MTC, é a somatória da mente do seus cinco principais órgãos e, se estendermos o raciocínio com nossos conhecimentos de fisiologia dos dias de hoje, poderíamos dizer que a mente do indivíduo é a resultante da soma da mente de cada uma de suas células.

O assunto surgiu sem muita pretensão, mas causou um enorme interesse por parte do meu público que ficou impressionado com a ideia de que um órgão ou até mesmo uma célula possa ter mente e por isso resolvi falar mais sobre isso aqui, para meus leitores deste ilustre jornal.

Os meridianos e canais energéticos são gerados a partir da força vital da unidade de vida mais básica e trafega informação advinda desta unidade, integrando-a, como em um holograma gigantesco, com informações de todas as outras partes do mesmo organismo. Esta seria uma explicação bem acadêmica, calcada em física quântica, para explicar como isto é possível, mas existem exemplos bem comuns para percebermos a ação desta alma/consciência orgânica.

Gosto de iniciar com um exemplo o fato de que nós, inconscientemente, não acreditamos que a mente e a nossa individualidade sejam localizadas no nosso cérebro. Quando me perguntam: "Quem é Alexandre?" - e eu respondo - "Sou eu!"- instintivamente aponto com meu dedo para o centro do meu peito, local onde se encontra o meu coração.

Dentro da MTC, o coração é a sede do Shen, ou espírito, o que na psicologia reconhecemos como o ego ou senso de identidade. O coração é como um imperador que rege com sua energia todos os outros órgãos, por isso quando sou questionado, acredito que o lugar do meu corpo onde eu "me encontro" seja sobre este órgão imperador.

O imperador comanda o reino, porém o trabalho intelectual, a racionalização e lógica estão ao cargo de seus conselheiros e sábios. No nosso corpo a energia equivalente se encontra alojada no baço.

O campo energético desse órgão contém a energia que move a capacidade analítica de nosso pensamento e contribui também para a nossa personalidade final. Quanto mais forte a energia do baço mais calculista será o indivíduo e terá uma inclinação para pensar demoradamente sobre tudo.

Uma variável negativa desse tipo de relação entre mente e órgão é observada claramente neste caso: o pensar excessivo (conhecido como preocupação) consome a energia do baço e o enfraquece, ou seja, o mal uso da capacidade de pensamento pode afetar o funcionamento deste determinado órgão.

A energia do fígado, por sua vez, tem papel comparável ao dos militares em um reino: faz o planejamento estratégico e dele emana o desejo de vencer e se superar, para que o corpo se desenvolva.

Quando a pessoa se bloqueia no processo de exercício da própria vontade virá gerar raiva, revolta, rancor e mágoa podendo levar a processos mentais como ansiedade e também outras formas de insegurança. Claro que a ansiedade e a insegurança excessivas irão progressivamente minar a energia hepática, gerando distúrbios de sono e digestão.

Outro exemplo vem dos rins, que têm seu campo energético ressonante com o desejo de sobrevivência e as vontades mais básicas e biológicas do ser, como a sexualidade e a libido. O enfraquecimento da energia renal resulta na sensação de medo de tudo que é novo e desafiador.

Do mesmo modo, pessoas submetidas à sensação de medo terão sua energia renal afetada por ele. Pense na "clássica" situação em que uma criança que sente medo advindo de um susto chega a urinar nas calças. Isso ocorre devido a reversão do fluxo energético do rim provocada pela sensação de medo.

Gosto de pensar no processo de integração destas mentes dos órgãos como cinco pessoas sentadas ao redor de uma mesa redonda, onde cada um dá sua opinião sobre a abordagem dos fatos que percebemos no nosso meio ambiente, e a soma destas abordagens resulta no comportamento do indivíduo.

Aquele que sabe dar ouvido às opiniões de cada uma das energias nesta mesa nos diferentes assuntos e experiências vividas é considerado um indivíduo equilibrado e com boa saúde mental.

ALEXANDRE MARTIN é médico formado pela Unicamp e especialista em Acupuntura e Osteopatia

 


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