Opinião

O manto azul

Sob a proteção deste sagrado manto azul, são atribuídos muitos milagres


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Guaraci Alvarenga
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Um fato histórico, na página do livro do tempo, foi anotado em 6 de novembro de 1888, no então reinado do Brasil. A princesa Isabel, em pagamento de uma promessa, visitou a basílica, em Aparecida, e ofertou à santa Nossa Senhora uma coroa de ouro cravejada de diamantes e rubis, juntamente com um manto azul, ricamente adornado.

Desde então, sob a proteção deste sagrado manto azul, são atribuídos muitos milagres ao povo brasileiro.

Numa pequena capela, durante uma noite tranquila, duas velas acesas iluminavam a imagem de Nossa Senhora Aparecida. De repente, as chamas se apagaram sem motivo aparente. Os devotos que estavam no local ficaram surpresos e uma das fiéis presentes, Silvana da Rocha, tentou acendê-las. Porém, para o espanto de todos, as velas se acenderam sozinhas.

Um escravo chamado Zacarias passava pelo santuário de Nossa Senhora e pediu ao feitor que o deixasse rezar naquele lugar. Como foi autorizado, ele se ajoelhou e fez suas orações com toda a fé. Então, as correntes que estavam prendendo suas mãos e pés se soltaram sem que ninguém encostasse nelas.

Um homem passava por Aparecida quando observou a fé dos romeiros. Como não acreditava no poder de Nossa Senhora, zombou dos fiéis. Assim, resolveu mostrar que a fé na santa era uma bobagem entrando na igreja a cavalo. Porém, quando foi fazer isso, a pata do seu animal ficou presa na pedra da escadaria. O cavaleiro, então, arrependeu-se e entrou no santuário já como devoto. Um deles ficou gravado em minha memória de forma indelével, ainda criança:

Perdedor de várias Copas do Mundo, inclusive uma final em seu próprio domínio, a grande derrota no Maracanã em 50, a arte do futebol brasileiro não conseguia se impor aos olhos do mundo. A seleção canarinha, carinhosamente chamada assim pelo reluzente amarelo predominante em seu uniforme, encantava os torcedores, mas não se consagrava como reis do futebol. Faltava uma conquista maior diante dos grandes do futebol mundial.

Um time de craques, com as figuras iluminadas de Pelé e Garrincha, ainda assim, carregava sobre os ombros o peso da tragédia do Maracanã.

Diziam os críticos da época que os nossos jogadores privavam da maturidade necessária para vencer um mundial. Careciam de uma bagagem internacional.

Bem sabemos que o futebol é um campo vasto de superstições. Cada jogador tem seu amuleto de sorte e dele não se separa jamais.

A seleção, sempre vestida de canarinho naqueles jogos, vencia os jogos e ganhava ares de apego exagerado à cor amarela.

Veio a final contra Suécia. Os dois times acolhiam como cor oficial, o amarelo.

Os pobres, de então, os jogadores brasileiros, só tinham um único uniforme amarelo. Entretanto, a Fifa decidiu-se pelo sorteio. A Suécia ganhou o direito de jogar com seu uniforme oficial. Uma surda comoção abalou nossos atletas. Como abandonar o amarelo das vitórias? Era o prenúncio de nova tragédia. A maioria de nossos técnicos de futebol e jogadores sempre carrega e vive de superstições antes dos jogos..

Foi aí que o chefe da delegação brasileira, Paulo Machado de Carvalho, teve uma moção divina. Em sonho teria vislumbrado Nossa Senhora Aparecida com seu manto azul. Determinou ao seu roupeiro comprar camisetas azuis, mas que permanecesse em segredo até o início da partida.

Na preleção do técnico antes da final começar, pode se perceber o ambiente angustiante de qual seria a cor do novo uniforme.

Disse o Paulo, naquele instante, que em suas preces em busca da proteção divina, apareceu bem no alto, soberana,a imagem de Nossa Senhora Aparecida, com seu manto todo azul.

Com uma força espiritual jamais sentida, pediu a palavra e rogou graças celestiais a mostrar o uniforme todo azul:

"Meus jogadores, desta vez estão abençoados.. Entrem em campo, com a certeza da vitória. Ninguém há de nos tirar este título tão almejado. Estamos acobertados com o sagrado manto azul de Nossa Senhora."

O Brasil sagrou-se pela primeira vez, campeão mundial. O mundo curvou-se diante de nosso futebol. O milagre do manto azul aconteceu.

GUARACI ALVARENGA é advogado

 


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