Opinião

Encaixotando minha biblioteca

É recorrente a história do destino das bibliotecas após a morte de quem adquiriu


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Jose Renato Nalini
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"Encaixotando minha biblioteca" é o nome do livro do argentino Alberto Manguel, que conseguiu reunir trinta e cinco mil livros, alguns dos quais bem raros. Dentre eles uma Bíblia do século XIII, escrita a mão num pergaminho. Li a entrevista que ele concedeu a Ubiratan Brasil e muitas reflexões essa leitura suscitou.

Primeiro, vi que não é só no Brasil, terra ainda inculta, que as bibliotecas sofrem perseguição. Argentino, morou em Israel e Taiti, mudou-se em 1980 para Toronto e se tornou cidadão canadense. Em cada cidade, adquiriu mais livros. Em 2000, achou que a biblioteca finalmente iria permanecer numa casa medieval, um presbitério construído no século XVI. Todavia, a França do Iluminismo exigiu que ele exibisse a nota fiscal de cada livro. Isso o fez encaixotar seus livros e mantê-los no Canadá, enquanto lecionava nas Universidades americanas de Columbia e Princeton.

A salvação estava em Portugal. Ela foi abrigada no Palácio dos Marqueses de Pombal, na rua das Janelas Verdes, em Lisboa. Constitui o ponto alto do Centro de Estudos da História da Leitura, que será inaugurado em 2022.

Lembrei o que tem acontecido com as bibliotecas brasileiras. A grande coleção da família Nogueira Garcez foi doada à Academia Paulista de Letras, durante o período em que o teto do auditório caíra, em virtude de infiltração. A impossibilidade de integrar ao acervo todos os livros, fez com que eles também fossem destinados a outras entidades. O historiador Célio Debes, recentemente falecido, doou a sua enorme biblioteca a uma entidade que não cumpriu o compromisso de mantê-la reunida e incólume. É recorrente a história do destino das bibliotecas após a morte de quem adquiriu, amorosamente, seus livros durante toda a vida. Vão parar nos sebos, vendidos aos exemplares, por preço simbólico.

Sou devedor insolvente de pessoas que me ajudaram a formar a minha biblioteca pessoal. Ainda no ensino fundamental - o antigo primário - a cada mês ganhava um livro de histórias da Melhoramentos. Minha mãe me tornou um aficionado por livros. Nunca mais parei de ler.

Já na carreira, o juiz aposentado Olavo de Almeida me ofereceu a sua coleção de Revistas dos Tribunais, desde o número 1. Essa se perdeu, de tanto ser transportada nas mudanças. Quando o desembargador Young da Costa Manso faleceu, sua viúva, D. Vera Maria Brandão Teixeira da Costa Manso me mandou escolher os livros que quisesse. Fiquei com apenas alguns, aqueles que contêm anotações a lápis, verdadeiras glosas que esclarecem o teor de preciosas obras estrangeiras.

No convívio de que usufruí com Paulo Bomfim, com quem almoçava ao menos uma vez por semana - nos últimos anos, ele insistia para que eu almoçasse com ele todos os dias - ganhei não só sua sapiência, que compartilhava generosamente. Mas era comum sair de sua casa com um livro de sua coleção.

Lygia Fagundes Telles me presenteou com livros dela, com amáveis dedicatórias e também com os livros que recebia e que não iria ler, pois eram de assuntos que refugiam ao seu interesse.

Ainda compro livros. Todas as semanas. Leio e releio. Para mim, ler é tão necessário como respirar.

Meus livros também já passearam bastante. Enquanto solteiro, estavam em minha casa de Jundiaí, à rua 15 de Novembro. Depois de casado, andaram por Barretos, Monte Azul Paulista, voltaram para Jundiaí, pois não cheguei a morar em Itu. Vieram para São Paulo, primeiro para o sítio de meu sogro na Guarapiranga. Depois para a casa do Alto da Boa Vista. Finalmente, para a Oscar Freire.

Chegaram a um volume tal, que tive de comprar um apartamento para guardá-los. Pressionado pela filha caçula, que impõe suas vontades, dispus do apartamento e eles vieram para o meu. Uma parte foi para a chácara, no Bairro da Toca. Ali sonhei edificar uma biblioteca. Araken Martinho e Fernando cuidaram do projeto. Foi quando caí, fraturei meu braço esquerdo e tive de me submeter a uma delicada cirurgia.

Os filhos resolveram que prioritária é a reforma de meu apartamento, para ser adaptado a um idoso. Adia-se a biblioteca. Mas ela continua nos meus planos e nos meus sonhos.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022

 


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