Opinião

Queixumes com esperança

Espero um tempo em que todos os abusadores sejam combatidos


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Maria Cristina Castilho de Andrade
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Lamento pela morte violenta, há dois meses mais ou menos, do Robertinho que, aos domingos, olhava carro nas proximidades da Catedral N.S.D., sua forma de superar o desemprego. Perguntava-me sobre outras missas posteriormente. Caso contrário, iria para casa, com o pensamento na macarronada feita pela esposa. Homicídio através de pauladas na cabeça. Através de seus amigos, ouvi duas versões para o motivo: disputa por ponto de estacionamento nas proximidades da Chácara Urbana ou ter ganho um valor em aposta, por ele exibido.

Lamento pela morte, há mais ou menos 15 dias, do João. Olhador de carros, igualmente, na região central. Desconheço se possuía família, casa ou morava em algum "mocó". Mostrava-me o pé deformado pelo inchaço, porém se recusava ir ao médico por acreditar que a hora que interrompesse o passo trôpego seria para sempre. Foi o que aconteceu.

São pessoas que se aproximam e se tornam parte de meu cotidiano. Alinhavamos respeito e carinho. Os dois sacrificados pela violência da falta de oportunidades iguais.

Lamento pelas crianças e adolescentes que são vítimas de criminosos em relações destrutivas, que abusam de sua integridade, de diversas maneiras, para saciar suas taras, travestidos de mediadores com Deus. São bandidos que, embora possam não marcar o corpo, atingem o emocional. Crime hediondo.

Lamento pelas mãezinhas que têm seus filhos atingidos em contatos devastadores por pessoas consideradas de sua confiança. Mãezinhas feridas, pisoteadas por "especialistas" em inverter a situação, como se fossem elas as culpadas, com o propósito de varrer imoralidade para o subterrâneo das aparências. São sacrificadas pela indiferença cruel em nome do risco da revelação mais abrangente de fatos que alguém deseja ocultar. Como se encontra no relatório da Comissão Independente sobre Abusos na Igreja Católica na França (CIASE), solicitado por Dom Éric de Moulins-Beaufort, Arcebispo de Reims e Presidente da Conferência Episcopal Francesa: "O alcance do fenômeno da violência e da agressão sexual (...) revela que todas as relações estruturantes da humanidade podem ser desviadas e transformadas em relações predatórias, numa proporção que não pode ser considerada insignificante".

Lamento pela autoridade que, ao invés de estar a serviço, precisa se proclamar doutor, mestre, que é sério e diz de sua utilidade, reputação,em defesa de si próprio. Recordo-me da música "Teresinha" de Chico Buarque de Holanda: "... Me contou suas viagens/ E as vantagens que ele tinha...". Em lugar de acolhimento a vítimas, as trata como pessoas que causam problemas, criam caso. Como escreveu Santa Teresa D'Ávila: "Não diga nunca, de você mesmo, algo que mereça admiração, quer se trate do conhecimento, da virtude, do nascimento, a não ser para prestar serviço. Mas então, que isso seja feito com humildade, e considerando que esses dons vêm pelas mãos de Deus".

Vem-me a música "Coração Civil" de Milton Nascimento: "Quero a utopia, quero tudo e mais/ Quero a felicidade dos olhos de um pai/ Quero a alegria, muita gente feliz/ Quero que a justiça reine em meu país. (...) Quero nossa cidade sempre ensolarada/ Os meninos e o povo no poder, eu quero ver. (...) Se o poeta é o que sonha que vai ser real/ Bom sonhar coisas boas que o homem faz/ E esperar pelos frutos do quintal. (...) Doido para ver o meu sonho teimoso um dia se realizar".

Espero um tempo em que pessoa alguma necessite se cobrir do pó do asfalto em troca de alguns trocados.

Espero um tempo em que todos os abusadores sejam combatidos e impedidos de novos abusos através da lei.

Espero um tempo em que os familiares das vítimas de abuso sexual sejam vistos como sofredores que precisam de acolhimento e sopro de ternura e justiça sobre suas chagas e não mais como incômodos por serem menestrel da realidade que incomoda.

Espero um tempo em que todas as autoridades desçam de seus pedestais e se coloquem a serviço que acalente.

Creio firme na Palavra de meu Senhor (cf. Jo 16, 33): "No mundo havereis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo".

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista

 


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