Opinião

Mulheres, ansiedades e depressões


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Margarethe Arilha
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Recentemente, no dia 8 de outubro quando se comemorou o Dia Internacional da Saúde Mental, a prestigiada revista científica Lancet publicou um importante estudo, analisando o impacto da epidemia da covid-19 sobre a saúde mental global. A conclusão foi a de que os grupos populacionais mais afetados têm sido as mulheres e os jovens . De uma maneira geral, indica que houve o surgimento de 76 milhões de casos de ansiedade e 53 milhões de casos de depressão em 204 países, no ano de 2020. Há vários aspectos a comentar sobre esse estudo. Um deles é que fica claro que os países vem desinvestindo valores sobre o campo da prevenção e assistência à saúde mental, e que em média os países gastam cerca de 21% de seu orçamento nessa área. Porém com pouca expressividade, os processos parecem que refletem um certo descaso crônico com serviços deste setor. De maneira geral, após cerca de um ano e meio de convívio com uma das mais extraordinárias experiências vividas pelo planeta – por sua excepcionalidade, tanto em sua natureza quanto em sua extensão e impacto - muitas questões restam pendentes. Uma delas é: o que pudemos aprender sobre como é afetada a saúde mental das mulheres em situações críticas como essa?

No caso do Brasil, há inclusive uma certa singularidade em se tratando de políticas públicas de saúde mental. Isso ocorreu em função da positiva configuração do SUS – Sistema Único de Saúde, construído historicamente em torno de valores como universalidade, equidade e participação social. Adicionalmente, processos históricos de mobilização de movimentos sociais que lutaram pelas propostas antimanicomiais e pela incorporação de um saber específico do campo da Psicologia e da Psicanálise resultaram na criação dos CAPs , diferenciando-se portanto, do conjunto dos países, de uma medida geral, por haver institucionalidade para produzir prevenção e assistência de boa qualidade. O fato de que sempre se enfrentam com iniciativas precarizantes do sistema não deixa de ser desestabilizador e decepcionante. Nos últimos anos esse foi um fato no país, que, felizmente, não tem sido predominante . De maneira heroica os profissionais de saúde que trabalham em municípios tratam de manter a qualidade do atendimento previsto.

Mas, momentos críticos como os da pandemia covid-19 mostram que o mundo deve trabalhar efetivamente, com recursos, e com habilidades específicas desenvolvidas através de espaços de diálogo e de interlocução . Transformar as políticas públicas é absolutamente essencial para que se promova a qualidade das equipes que atuam nos serviços, com previsão de necessidade de transmissão de capacidades de cuidado e escuta , não apenas nos espaços específicos de saúde mental. Todo profissional de saúde pode escutar . Jovens e mulheres têm urgência por estarem com dores exacerbadas diante de um mundo que segue cobrando desempenho, mas que desconhece o sofrimento psíquico instalado. Esta dor precisa ter lugar de expressão. E o Estado precisa saber transmitir essa capacidade

O maior aumento das crises de ansiedade e depressão foi registrado entre mulheres . Excesso de trabalho, mediação de conflitos , aumento da violência doméstica, mas, a meu ver, sobretudo ter que lidar com seus próprios lutos e perdas, tem gerado sintomas de exaustão. Passar de uma posição de sujeito a outra, quer seja buscando lidar com o que surge de tristeza e sofrimento em si mesma e entre todos os membros da famílias não tem sido simples, e as mulheres tem recebido insuficiente amparo e cuidado. Não só ocorreram perdas de entes queridos, parceiros, pais, irmãos, filhos, mas todas as posições de vida também estão transformadas. Isso é luto, é perda, em todos e cada um de nós . Para os jovens e para as mulheres, a falta de contato com o mundo de antes, tem gerado um incremento de inibições, de sintomas e de angústias, tal qual como o titulo de uma das mais importantes obras de Freud (Inibição, Sintoma e Angústia). Exaustão deve ser transformada em ação de resgate da vida, do prazer e da alegria. Mas para isso acontecer é dever escutar e dar o direito e o espaço a digerir a dor. Comece já.

MARGARETH ARILHA é é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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