Opinião

Você consegue estar 100% presente?

O fluxo é capaz de anular passado e futuro e só deixar vivo o presente


Alexandre Martins
Felipe dos Santos Schadt
Crédito: Alexandre Martins

Eu fico muito incomodado quando estou falando com alguém e esse alguém não me dá 100% da sua atenção. E nem estou falando de uma palestra ou uma aula, estou apenas falando sobre uma conversa trivial que tomaria alguns poucos minutos do tempo alheio. Mesmo assim, minha fala não é tão atraente quanto a tela do celular.

Penso que dar atenção ao outro é, além de muito educado, uma forma generosa de respeito para com o que o outro tem a dizer. Estar focado na fala que não é a sua é um gesto de grandeza inestimável. Mas parei para pensar… Eu dou 100% da minha atenção para o outro quando ele está falando ou eu também me distraio com outras coisas? Posso não olhar para uma tela de um celular enquanto o outro fala, mas posso facilmente estar viajando dentro de minha cabeça ao invés de ouvir o outro com a atenção devida.

Escutar o outro é algo difícil. No geral, quando o outro fala, estamos maquinando uma resposta para rebater ou acrescentar no imediato termino da fala que vem do outro lado. Isso não é escutar. Tão pouco é estar presente.

A presença é algo bem difícil de se alcançar, aliás. Se eu te perguntar: "Você está me ouvindo agora?" Você pensará ou na pergunta ou na resposta e, fazendo isso, você anula a sua possibilidade de estar me ouvindo agora. Oras… Se você pensa na pergunta, você está no passado, pois eu já fiz a pergunta e ela já não faz mais parte do agora. Se você estiver pensando na resposta, você também não está presente, pois a resposta ainda não veio, ela está no futuro e também não faz parte do agora. Podemos até divagar que o agora, tecnicamente não existe, pois no instante que eu penso no agora ele já deixou de ser presente para ser passado. E se eu tentar me adiantar e pensar no agora antes dele acontecer, estarei no futuro.

Estar presente é um grande desafio para a vida que nós levamos. Falo de uma vida baseada no trabalho e no acúmulo de coisas. Todos trabalhamos para acumular coisas. Essas coisas podem ser o que você quiser: bens materiais, experiências, conhecimento, relações… Esse modo de vida se baseia em duas premissas: a nostalgia e a ansiedade.

A nostalgia é viver os afetos que já te afetaram um dia. É a vida baseada na memória. O triunfo da lembrança. A ansiedade é o oposto. É viver um afeto que ainda não chegou. Viver com a cabeça no futuro incerto e ser afetado por isso. Muita gente sofre de crises de ansiedade por justamente serem muito afetadas por algo que ainda está no futuro. Viver no presente é estar totalmente focado nele. Mas como estar focado em algo que tecnicamente não existe? Há um truque que faz o presente existir: O fluxo.

Mihaly Csikszentmihalyi, psicólogo que cunhou a teoria do fluxo, diz o seguinte: quando você faz uma atividade que tem a dificuldade equivalente a sua habilidade para realizá-la, você entra em um estado de foco total, ou, estado de fluxo.

Essa teoria é amplamente explorada na hora de criar jogos, sobretudo os eletrônicos. Se você já jogou qualquer joguinho de computador, celular ou videogame, sabe do que eu estou falando. A primeira fase do jogo é muito fácil, já que você ainda não tem habilidade para jogar. Conforme você vai ganhando habilidade, o jogo vai ficando mais difícil. Habilidade equivalente a dificuldade produzem estado de fluxo. Aí você entende o porque pessoas se viciam tão facilmente em jogos.

O intrigante é que se você entrar nesse estado não poderá nunca dizer "Olha! Estou em estado de fluxo!". Não! Porque se você parou para pensar que você está no fluxo, você teve que sair dele para chegar a essa conclusão. Portanto o fluxo é capaz de anular passado e futuro e só deixar vivo o presente. Você aprende que não pode pensar sobre o presente. Você só pode sentir o presente.

E como é bonito viver o agora. Você já sentiu isso algumas vezes na sua vida. Sabe aquele momento que você olha para o relógio e não acredita no que vê. Já se passaram quase uma hora, mas pra você parece que só foi uns minutinhos. Ual… Você nem viu o tempo passar. Você nem notou que está aqui comigo agora, desfrutando do presente lendo esse texto há quase quatro minutos.

Conhecimento é conquista!

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP

 


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