Opinião

Investir em energia é essencial para o Brasil

Desde 2013, o regime de chuvas nunca mais encheu os reservatórios


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Vandemir Francesconi Junior
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A conta de luz está mais cara para todo mundo. A fatura tem pesado no bolso de empresários e de consumidores residenciais desde setembro, quando foi criada uma nova bandeira tarifária, cujo nome - Bandeira da Escassez Hídrica - dá a dimensão da gravidade da situação.

Esta crise energética decorre diretamente da pior crise hídrica em mais de 90 anos e atinge, sobretudo, reservatórios de hidrelétricas ao longo dos rios Paranaíba, Grande e Paraná, que são uma espécie de caixa d'água nacional, dada a relevância deles. Com os reservatórios em níveis preocupantes - alguns, como Ilha Solteira estão operando no chamado volume morto -, o país foi obrigado a acionar suas termelétricas, que geram energia mais cara.

Para incentivar a redução da demanda, foi criado um bônus para quem economizar energia. Ainda assim, estamos andando no fio da navalha e rezando por uma mãozinha de São Pedro para fazer a travessia até o período de chuvas, que começa agora em novembro e se estende até abril. Embora tenha chovido mais nas últimas semanas, a situação das usinas é delicada e o risco de racionamento de energia ainda não está completamente dissipado.

O cenário melhorou para o fim deste ano, mas permanece uma incógnita para o próximo, o que eleva as incertezas da economia. Neste momento, quando os empresários estão decidindo orçamento, projetos e investimentos para 2022, as dúvidas sobre o custo da energia e se há risco de racionamento representam um ponto de interrogação em suas planilhas.

Felizmente, aprendemos lições com o terrível racionamento de 2001. Diversificamos nossa matriz energética, que hoje é menos dependente das hidrelétricas, sempre sujeitas às intempéries e que têm se mostrado instáveis nos últimos anos, como efeito das mudanças climáticas. Está virando tradição no final do período seco termos dificuldade na geração de energia e na disponibilidade de água.

Desde 2013, por exemplo, o regime de chuvas nunca mais encheu os reservatórios das usinas e ainda estão muito presentes as lembranças da grave crise hídrica no Estado de São Paulo entre 2014/2015. Naquele momento, o principal sistema paulista, o Cantareira, atingiu apenas 3,6% de sua capacidade e a Sabesp passou a operar bombeando água do volume morto.

Há 20 anos, as hidrelétricas respondiam por 83% da nossa capacidade instalada, hoje representam 65%. As demais fontes estão divididas entre: termelétrica (13%), eólica (10%), biomassa (8%), solar (2%) e nuclear (1%). Não há dúvidas de que o futuro são as fontes renováveis, que minimizam o impacto ambiental. Mas não podemos esquecer que o seu potencial de geração elétrica varia de acordo com as condições meteorológicas, aumentando a insegurança da matriz.

Por isso, para termos segurança energética, algo fundamental para o tão desejado crescimento sustentado da economia brasileira, precisamos investir de forma diversificada e além das nossas necessidades imediatas. O Brasil precisa ter capacidade de geração de energia excedente para não ficar à mercê das intempéries do clima.

O investimento público total vem caindo. Era 10% do Produto Interno Bruto (PIB) nos anos 1970, em 2010 foi de 5% do PIB e tem estado nos últimos três anos na casa dos 2,5% do PIB. No entanto, como há a alternativa de investimento privado desde os anos 1990, a eterna escassez de recursos públicos não pode ser desculpa para a falta de solução para crises energéticas.

Há dois atores fundamentais nesta história, a quem cabe coordenar este processo e regular o mercado: a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e o Ministério das Minas e Energia (MME). Estes devem propor os investimentos à iniciativa privada, que opera neste setor com contratos longos, em geral de 30 anos, o que garante previsibilidade a todos.

O consumidor paga pelo investimento na sua fatura mensal, não é preciso nenhuma mágica para fechar as contas nesses casos. Porém, não podemos cometer os mesmos erros do passado, como foi feito com as usinas de Belo Monte e Jirau, construídas a fio d'água. Sem reservatório, na seca essas hidrelétricas produzem energia aquém do necessário. Belo Monte, por exemplo, que custou R$ 40 bilhões e é a quarta maior hidrelétrica do mundo, está com 18 turbinas paradas, um desperdício inominável.

Não há razão para não superamos a escassez de energia que atrapalha o sucesso econômico do Brasil. Precisamos ter bons projetos e executá-los.

VANDERMIR FRANCESCONI JÚNIOR é primeiro diretor-secretário da Fiesp e do Ciesp

 


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