Opinião

"Duna", de novo

O que esperar do "Duna" que estreia hoje?


Alexandre Martins
Rafael Amaral
Crédito: Alexandre Martins

Uma nova versão de "Duna", do famoso livro de Frank Herbert, chega aos cinemas nesta quinta-feira (21). Há bastante expectativa em torno da superprodução. Os vários rostos famosos no cartaz impressionam. O diretor é Denis Villeneuve, à frente de outros dois bons filmes recentes de ficção científica: "A Chegada" e "Blade Runner 2049".

Enquanto escrevo ainda não assisti ao aguardado longa-metragem. Conheço um pouco de sua história - e das histórias de bastidores de outras versões. "Duna" parece ao mesmo tempo fácil e arriscado, cheio de personagens, tão propenso aos efeitos de uma droga lisérgica quanto à aventura do bem contra o mal, ao estilo Marvel.

Há uma aura maldita ao redor do livro no cinema. O primeiro a tentar adaptá-lo foi o cineasta Alejandro Jodorowsky, ainda nos anos 1970, depois de se estabelecer como autor de obras que caíram bem em sessões à meia-noite nos Estados Unidos da época: "El Topo" e "A Montanha Sagrada". Quando teve a oportunidade de escolher um novo filme para fazer, tendo carta branca do amigo e produtor Michel Seydoux, Jodorowsky escolheu "Duna".

A história toda está contada no ótimo documentário "Duna de Jodorowsky", de 2013. Seria cômico não fosse o próprio Jodorowsky o narrador central, de quem nunca duvidamos, alguém que convenceu Salvador Dalí e Mick Jagger a estrelarem o filme, além de outros famosos e do próprio filho, Brontis, para o papel principal.

Há histórias reais mais estranhas que a ficção. As histórias que envolvem "Duna" são um pouco assim: Jodorowsky dizia que não queria fazer apenas um filme, mas levar às plateias a sensação de uma "viagem" de drogas sem que fosse preciso usá-las. Seria, em suas mãos, algo próximo demais a uma imersão surrealista, a exemplo de "A Montanha Sagrada".

Ele convocou artistas visionários para ajudá-lo a desenvolver as formas das personagens e colocar tudo em storyboards - depois convertidos em livros que seriam entregues a cada um dos grandes estúdios americanos. Os artistas eram ninguém menos que H.R. Giger e Dan O'Bannon, que depois estariam na folha de pagamento de "Alien, o Oitavo Passageiro".

A loucura de Jodorowsky cresceu além da conta. Nenhum estúdio topou injetar milhões de dólares para dar vida ao surrealismo do diretor chileno. Enterrado o projeto, o livro mudou de mãos, e outra estranha aventura teve início graças ao faro do produtor Dino De Laurentiis e de sua filha, Raffaella. Faltava encontrar o diretor certo.

No início dos anos 1980, com "O Homem Elefante", David Lynch projetou-se como um dos cineastas mais interessantes de sua geração. Um autor como Jodorowsky. É fácil compreender por que a família De Laurentiis interessou-se por "Duna"; difícil é saber por que Lynch aceitou entrar no jogo sabendo que se tratava de um filme dessa família.

O realizador não teve direito ao corte final. De Laurentiis queria um filme de ação e, como o próprio Lynch recorda no livro "Espaço Para Sonhar", escrito por ele e Kristine McKenna, o produtor não entendia de abstrações e poemas, apenas de ação. "Dino queria fazer dinheiro e eu não tinha problema com isso - ele era assim", diz o cineasta, levado à toca dos leões.

O "Duna" de Lynch pode ser descrito como uma mistura de "Guerra nas Estrelas" com "Satyricon de Fellini". Mas não atinge um ou outro de maneira satisfatória, dando vida a uma gororoba que pode ser descrita como um dos piores filmes já feitos por um grande diretor. Se Jodorowsky tinha Mick Jagger, Lynch conseguiu Sting como um punk interestelar que usa sunga de borracha e desafia o herói para uma luta de facas.

Por fim, Lynch não quis aparecer nos créditos; optou pelo nome Alan Smithee, pseudônimo usado por cineastas que não querem vincular seus nomes a determinadas obras. Nunca se perdoou por ter feito parte dessa bomba. "Não era meu filme", confessou o cineasta que, pouco antes, recusou um convite de George Lucas para dirigir "O Retorno de Jedi".

O que esperar do "Duna" que estreia hoje? Que tenha um pouco da ousadia criativa de Jodorowsky e nada da ridícula versão de Lynch. E que carregue o espírito das grandes ficções científicas do cinema, como "2001: Uma Odisseia no Espaço" e "Metropolis". Na superfície, parecem tratar do impossível; no fundo, abordam nossas aflições.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com


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