Opinião

A miséria humana

Que sabor terá uma vitória construída sobre alicerces tão poluídos?


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Jose Renato Nalini
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Embora idoso, não me acostumo com certas práticas recorrentes no mundo competitivo. É lastimável assistir ao espetáculo de indigência moral de quem pretende obter um determinado resultado e, concorrendo com outros, não hesita em atacar - leviana e covardemente - o adversário.

Que isso ocorra no âmbito da política partidária, ainda se compreende. É um território penumbroso, onde o que vale é a hipocrisia, a tergiversação, o rompimento dos acordos, a traição e outras práticas abomináveis. Mas em outras esferas, é estranhável.

Quem aspira integrar um Silogeu de intelectuais, por exemplo. Seria demasiado esperar uma competição polida, civilizada e ética? Não é o que tem acontecido. Evidência de que a humanidade regrediu e continua com sintomas de primatas, embora não seja a regra absoluta. Mas episódios lamentáveis sugerem que o próprio Criador estaria desalentado com a sua obra. Seria o projeto humano uma ideia fracassada?

O que levaria pessoas que têm qualidades, que poderiam explorar as próprias condições de chegarem ao posto almejado, a uma postura de diminuição dos méritos do concorrente?

Insegurança, complexo de inferioridade, vaidade excessiva?

A vaidade é um grande móvel do comportamento dos homens. Matias Aires chegou a escrever um tratado sobre a vaidade humana. Nele afirmou: "A vaidade parece-se muito com o amor-próprio, se é que não é o mesmo; e se são paixões diversas, sempre é certo que ou a vaidade procede do amor-próprio ou este é efeito da vaidade".

O Eclesiastes a contempla: "Vaidade de vaidades! Diz o pregador: vaidade de vaidades! Tudo é vaidade". La Rochefoucauld sentenciou: "O que nos torna a vaidade dos outros insuportável é que ela fere a nossa". Razão assistia ao Marquês de Maricá, ao asseverar: "A vaidade é a bem-aventurança dos néscios, dos tolos e dos semidoutos".

Coisa bizarra é assistir ao espetáculo de alguém presumivelmente provido de sabedoria, ser tão tosco e primário, a ponto de disseminar maledicência, como reles mexeriqueiro, algo imputável a escalas inferiores na hierarquia civilizatória dos racionais. Anatole France estava provido de razão quando escreveu, em "O Manequim de vime", que "todas as nossas misérias verdadeiras são íntimas e causadas por nós mesmos. Acreditamos erradamente que elas vêm de fora, mas formamo-las dentro de nós mesmos, de nossa própria substância".

Que substância pútrida é essa? A se extrair dos fatos, das condutas ofensivas, injuriosas e até caluniosas, não há como concluir de outra maneira: o material com que se produziu o homem não é a terra, o solo nutritivo e generoso, em que "se plantando tudo dá". Um fenômeno estranho fez com que a terra se transformasse em lodo. Somos, portanto, feitos de matéria ordinária, frágil, pobre e rústica. Ao menor sinal de insuficiência de nossos próprios dotes, surge a indomável tendência a detonar o "inimigo". Aí entra o vale-tudo.

Acredito que os capazes de assim atuar, depreciando o concorrente, em lugar de enaltecer suas virtudes, sejam seres desprovidos de consciência. Não conseguem vislumbrar o ridículo de uma atitude leviana e maldosa. Que sabor terá uma vitória construída sobre alicerces tão poluídos?

Será que as honras, os títulos, os cargos, as funções, derivam de praxes tão abjetas? Se isso é o que acontece, talvez fosse o caso de revisar os critérios para o reconhecimento de honras que são contaminadas pelo procedimento utilizado para alcançá-las.

Uma sociedade que não se escandaliza de se considerar "cristã", deveria se recordar da lição do Evangelho, cuja singeleza é perene, embora não tenha servido para orientação do gado humano, resistente ao bem e vocacionado à prática do inadmissível.

Não é confortador aceitar que na verdade era Thomas Hobbes quem tinha razão, e não Jean-Jacques Rousseau. Nutria este uma visão idílica do homem puro, ingênuo e pronto à prática do bem. Ao contrário, o homem é o lobo do homem, aquele que faz da efêmera trajetória neste planeta, uma "guerra de todos contra todos".

Qual o sabor de uma vitória impregnada de falta de civilidade, de caráter, de hombridade, de probidade, de comiseração, de todas essas palavras que hoje moram na arqueologia do comportamento dos humanos?

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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