Opinião

O homem que aprendeu o Brasil

Paulo Rónai leciona francês e latim em colégios cariocas


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Professor Fernando Bandini
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Falei há tempos de Paulo Rónai, o sujeito salvo da morte por um dicionário. Volto a ele agora, em razão do livro "O homem que aprendeu o Brasil - a vida de Paulo Rónai", alentada biografia escrita pela jornalista Ana Cecília Impellizieri Martins. Lançado pela editora Todavia, em 2020, o livro conta a impressionante trajetória desse intelectual nascido na Hungria e brasileiro por adoção. Tradutor, professor, crítico literário, ensaísta, filólogo, dicionarista, Paulo Rónai foi um humanista que o totalitarismo nazista fez correr da Europa e que aportou no Rio de Janeiro em março de 1941, com poucos pertences e grana curta.

A história começa na Budapeste do início do século 20, onde nasceu Paulo Rónai, em 1907, de uma família de judeus de classe média. Seu pai tinha livraria, ponto de encontro de intelectuais, e em que o primogênito Paulo passava parte do dia. Aluno aplicado, empenhou-se no estudo de idiomas. Aprendeu francês, italiano, grego e latim (ao longo de oito anos, teve seis aulas semanais de latim), espanhol e inglês. Bolsista da Aliança Francesa em Paris, na década de 1920, topou numa livraria com antologia de poesia portuguesa e um dicionário francês-português. Traduziu para o húngaro um soneto de Antero de Quental. Leu uma tradução francesa de "Dom Casmurro", de Machado de Assis, e entusiasmou-se. Literatura com romancista daquele porte não poderia deixar de interessá-lo.

Formado, com tese de doutorado a respeito do escritor Honoré de Balzac, Rónai lecionava em liceus da capital magiar, colaborava com artigos e traduções para a imprensa. Com a ascensão de Hitler e a adesão do governo húngaro ao ideário nazista, Rónai planejou a fuga do cataclismo que se anunciava.

Traduziu para o húngaro antologia de poesia brasileira, na qual figurava poema de Ribeiro Couto. Poeta e diplomata, Couto seria decisivo para a vinda de Rónai. Servindo na Bélgica, Couto recebeu carta de Rónai, falando das traduções e do seu interesse em emigrar. O diplomata conseguiu visto provisório para o tradutor, primeiro para Portugal e de lá, para o Brasil.

A chegada ao Rio, o ouvido apurando a língua nova que aprendia, as tentativas de buscar a família, tudo isso é esmiuçado pelo texto ágil e elegante da biógrafa. No Rio, Ribeiro Couto apresenta-o a inúmeros intelectuais, dentre eles o dicionarista Aurélio Buarque de Holanda. Com Aurélio, vai partilhar amizade sólida e inspirada. Os dois organizam e traduzem a coleção "Mar de histórias", antologia de contos da literatura mundial. O professor Paulo leciona francês e latim em colégios cariocas, ao mesmo tempo em que firma reputação como tradutor. Passa a colaborar com regularidade para jornais e revistas literárias, no Rio, em São Paulo e Porto Alegre, com artigos e ensaios. Sua rápida fluência no português escrito impressiona. Para a gaúcha editora Globo coordena o lançamento das obras completas de Balzac. A "Comédia Humana" ganhou edição brasileira em que Rónai traduziu muitas das obras, uniformizou os textos (havia outros tradutores, como os poetas Carlos Drummond e Mário Quintana), escreveu as notas de rodapé. Foram 17 volumes lançados, num total de 12 mil páginas e 7 mil notas de rodapé (ufa!). Empenhou-se em inúmeras atividades. Enquanto convalescia de grave infecção num leito hospitalar, escreveu os dois volumes de seu curso de latim, adotado em escolas brasileiras. Leitor aparelhado, foi dos primeiros a reconhecer a grandeza de Guimarães Rosa.

O trabalho da jornalista contou com o apoio da família Rónai, que lhe franqueou acesso ao diário de Paulo, escrito desde a década de 1920 até o início dos anos de 1990, primeiro em francês, depois em português. Ela pesquisou a correspondência e abiblioteca particular do biografado.

Há que se agradecer a Ana Martins o livro que escreveu, por contar de maneira fluente e entusiasmada a vida "desse homem contra Babel". Desse tradutor e professor que lutou para difundir conhecimento, aproximar culturas e vencer a barbárie e o obscurantismo. E que, nas suas próprias palavras, tanto trabalhou para merecer o destino que lhe foi dado.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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