Opinião

Sócrates morreria outra vez

Na democracia de Atenas, o que valia mesmo não era a verdade, senão a propaganda


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Jose Renato Nalini
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Aprendemos todos que o filósofo Sócrates, que foi obrigado a ingerir cicuta, um veneno letal, em 399 antes de Cristo, é um personagem histórico injustiçado. Nunca escreveu nada. Tudo o que se sabe sobre ele foi escrito por Platão (428/348 a.C.), seu discípulo.

Era um homem profundamente ético. Isso talvez explique o seu triste fim. Dele herdamos o "conhece-te a ti mesmo" e o "só sei que nada sei". Foi apontado pelo oráculo de Delfos como o homem mais sábio da Terra. E sua resposta foi irritante para os pretensiosos à época: aceitou o que dissera o oráculo, por haver compreendido o quão ignorante era.

Considerava sua missão chamar a atenção dos contemporâneos para o fato de também serem ignorantes. Atenas se orgulhava de sua Democracia, considerada - no século de Péricles - o único exemplo concreto desse regime. Mas Sócrates não era tão adepto da opção democrática. Platão nos diz que ele era inimigo ferrenho de um sistema que colocava os homens em posição de autoridade sobre os demais, não em virtude de sua sabedoria ou do seu talento para governar, senão devido à sua capacidade de influenciar as massas com retórica vazia e com as melífluas e hipócritas promessas eleitorais.

Numa Democracia, como a existente em Atenas, o que valia mesmo não era a verdade, senão a propaganda. Proliferava a categoria dos sofistas, que eram os mestres na arte da persuasão e para os quais a verdade era irrelevante. Os sofistas fizeram escola e sua tática sobrevive hoje. Os especialistas em marketing eleitoral, os consultores, os avaliadores das tendências, são exemplares bastante próximos àquilo que se chamava de sofística.

A Democracia ateniense não era tão consistente quanto se propalava. Hoje se sabe que os metecos, os estrangeiros, as mulheres, os escravos, eram todos excluídos de qualquer participação. A reunião dos atenienses na ágora, a praça da Polis, se resumia a poucos milhares que compareciam para exprimir a sua vontade, sob a forma que se convencionou chamar "direta" e que nunca mais ocorreu. Até o clássico exemplo dos cantões suíços é mais um símbolo do que realidade. Alguns cidadãos comparecem, num domingo da primavera, para concordar ou não com algumas propostas previamente estabelecidas.

Talvez o único exemplo de democracia direta contemporânea é aquilo que ocorre na Estônia, que realiza eleições pela internet, que tem o governo mais digitalizado que se conhece, que abre oportunidade para a cidadania de fato opinar sobre os destinos da coisa pública.

É tão exitoso esse modelo, que a Estônia aceita cidadãos de outros Estados para se considerarem e-estonianos, havendo fila de espera de milhares de indivíduos de todo o planeta, interessados em ingressar nessa fórmula tão civilizada de verdadeiro auto-governo.

Mas Sócrates foi acusado de corromper os jovens e de impiedade em relação aos deuses. Essa corrupção só poderia ser a pregação baseada na profissão de fé na autonomia individual, desde que baseada na ética, a busca permanente do bem próprio e de todos. Nunca se chegou a conhecer o fundamento da acusação. Nem se sabe, mais de dois mil anos depois, em que consistiria essa alegada "impiedade em relação aos deuses". Ao contrário, Sócrates reafirmou sua crença e o exato cumprimento de suas obrigações religiosas.

Platão reproduz o discurso de Sócrates, mas não o libelo dos acusadores. A Sócrates, após a condenação, conferiu-se a prerrogativa de escolher a própria pena. Ele respondeu que o Estado lhe devia uma pensão vitalícia pelos serviços prestados. Estes, segundo os julgadores, eram exatamente o motivo pelo qual foi condenado.

Aceitaram, no entanto, que pagasse uma pequena multa. E esperavam que ele fugisse. Ninguém se oporia a tanto. Várias cidades gregas se ofereceram para abrigá-lo. Mas ele começou a raciocinar em termos de razão. Concluiu que ela estava com os acusadores. 500 jurados o condenaram. Aceitou a morte.

Tudo aquilo que disse vem alicerçado por evidente racionalidade. Por isso não é temerário afirmar que hoje, se redivivo, seria novamente condenado. A democracia não foi aprimorada nesses milênios. Ou há quem sustente o contrário? O tema continua aberto, para que todos reflitamos sobre a filosofia, a política e a malícia dos homens.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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