Opinião

Com as melhores intenções

O convívio entre ser humano e animal é sempre repleto de surpresas


Divulgação
Jose Renato Nalini
Crédito: Divulgação

O ser humano se considera superlativamente acima de todas as demais espécies. Com essa arrogância, propõe-se a "melhorar o mundo". E faz coisas que depois causarão enormes prejuízos.

Já falei outro dia da importação de carpas asiáticas em Chicago, o que provocou uma superpopulação que hoje é dizimada por processo de eletrificação. Tantas as carpas abatidas que ali se come hoje hambúrguer de carpa.

Os castores importados para uma fábrica de casacos de pele em Ushuaia proliferaram de maneira tal, que hoje os caçadores são pagos para abatê-los. Da mesma forma, os javalis no Rio Grande do Sul.

Os exemplos são abundantes. A China sofreu um processo de abate das andorinhas, consideradas inimigas do povo, porque - pretensamente - comiam o arroz, sempre insuficiente para alimentar bilhões. Mas verificou-se, após à extinção, que na verdade elas consumiam era o inseto que inundava os arrozais. Quando as andorinhas não mais os frequentavam, a colheita de arroz foi um fiasco. Daí por diante, houve necessidade de se importar andorinhas, para repor o equilíbrio ecológico.

Outro relato interessante é feito por Oliver Sacks, no livro "A Ilha das Cicadáceas". Ele estava jantando num restaurante na ilha de Guam, na Micronésia, quando as luzes se apagaram. Seu anfitrião logo disse: "Isso acontece aqui o tempo todo. São incidentes provocados pelas cobras".

Ele achou que estava ouvindo mal. Mas o companheiro continuou: "Parece estranho, não é? Temos milhões dessas cobras pardas arborícolas - a ilha inteira está infestada. Elas sobem nos postes de telefone, entram nas subestações, atravessam os dutos, penetram nos transformadores e então ... puft! Falta energia de novo. Os blecautes acontecem duas ou três vezes por dia, e por isso todo o mundo está preparado para eles - nós os chamamos de "cobrautes". É claro que não podemos adivinhar quando eles vão acontecer".

Em seguida, a conversa mudou de tom. Oliver falou que estava sentindo falta dos pássaros que cantavam ao amanhecer, mas isso em Nova Iorque, onde morava. E indagou por que não ouvia pássaros em Guam.

"Não há canto de pássaros em Guam - a ilha é silenciosa. Tínhamos muitos pássaros, mas acabaram-se todos, não sobrou nenhum. Foram todos comidos pelas cobras arborícolas".

Elas chegaram no porão de um navio da Mainha, já no final da Segunda Guerra Mundial e, encontrando pouca competição entre a fauna nativa, multiplicou-se com rapidez. As cobras eram noturnas e podiam atingir um metro e oitenta de comprimento. Parece que não ofereciam perigo aos adultos, pois suas presas são muito recuadas nas mandíbulas. Mas comiam todos os tipos de mamíferos pequenos, pássaros e ovos. Este fora o motivo da extinção de todos os pássaros de Guam, inclusive de várias espécies exclusivas da ilha. Os morcegos frugívoros que restavam encontravam-se também ameaçados de extinção. Mas eles são considerados uma iguaria pelos habitantes da ilha.

O convívio entre ser humano e animal é sempre repleto de surpresas. Aqui no Brasil já houve a mania de se colecionar serpentes, de se criar jacarés em banheiras, de possuir animais exóticos. Nunca me acostumei com o fato de criadores de pítons também criarem coelhos para alimentar suas cobras de estimação.

Também nunca aceitei o trato conferido aos gansos, obrigados a um consumo patológico de ração ou milho, para que seus fígados fiquem inchados e possam produzir mais foie gras. Nem compactuo com o método de criação de galináceos que mantém luzes acesas dia e noite, para que consumam ração continuamente e possam servir de alimento mais cedo do que se estivessem ao ar livre, vivendo em natureza.

Estranho que se anuncie um "gado feliz", que iria tranquilamente para o abatedouro. Na verdade, considero bizarro um País possuir mais gado bovino do que seres humanos. É algo aparentemente exótico, sobretudo se considerarmos o efeito da flatulência e da digestão do gado, a emitir gás metano, considerado mais nocivo do que o CO2 dos veículos automotores.

Recentemente participei de uma banca de pós-graduação em que o candidato sustentava a existência de direito dos animais. Há uma tendência forte nesse sentido. Vamos ver como é que caminha. Desconfio que a posteridade nos considerará menos racionais do que nossos irmãos da fauna.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


Notícias relevantes: