Opinião

"A realidade é dura, mas é aí que se cura"

A melhora do cenário epidemiológico nos convida a um retorno à vida


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Alexandre Moreno Sandri
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Após 20 meses de vivência da pandemia por covid-19, os dados divulgados nas últimas semanas apontam para um declínio consistente e sustentável em todos os índices epidemiológicos. Representa uma vitória incontestável da Ciência e da Razão sobre o obscurantismo que se espraia em nossa sociedade.

Diante do cenário, uma questão fundamental que tem se colocado é como retomaremos a vida, a partir da experiência traumática que a vivência da pandemia nos impôs. O que será retomado e o que estará permanentemente transformado? Como será vivenciado o luto pós-pandemia? Apesar de estarmos diante de uma catástrofe, que impôs marcas a todos que a vivenciaram, sabemos, com a psicanálise, que a incidência destas em cada um de nós é absolutamente singular, pois que mediada pela nossa história, modos de relação, sintomas, e tudo aquilo que nos constitui enquanto sujeitos. E, claro, dependerá também de como a pandemia nos afetou mais particularmente. Pois, se todos vivenciamos o medo da morte, alguns estão (ou estiveram) imersos na dor de ter perdido alguém, ou alguns, queridos, ou de ter passado pela experiência de hospitalizações prolongadas, com a ameaça do fim muito próxima.

Mas, independentemente da proximidade, ou da dor objetivamente vivida, o luto parece ser a experiência incontornável neste momento de retomada da vida. O luto compreendido aqui como a necessidade de nos depararmos com aquilo que não há mais como ser o mesmo, em nós, ou no mundo que nos cerca. A experiência de estar diante de algo permanente e inevitavelmente transformado pela perda de algo em que estávamos ancorados (seja um amor, uma pessoa, um trabalho, ou mesmo uma ideia de mundo).

A experiência do luto se configura como processo, que pode se dar em tempos e modos diversos (aqui vale uma nota, de como, na sociedade contemporânea, temos buscado estandardizar o luto, estabelecendo tempos e formas normais e anormais para esta vivência), mas que, em geral, mobiliza sentimentos comuns e estruturantes ao processo. São do "jogo" a báscula entre a aceitação da perda e sua negação, a ambivalência entre sentimentos de culpa ("o que eu poderia ter feito?") e ódio pelo abandono sentido ("por que ele/ela fez isso comigo?"), e todas as modulações nos investimentos libidinais, a partir da experiência da perda. O psicanalista Juan-David Nasio descreve que, no processo de luto, "o eu desinveste a representação do amado, até que esta perca a sua vivacidade e deixe de ser um corpo estranho, fonte de dor para o eu. Desinvestir a representação significa retirar-lhe o seu excesso de afeto, reposicioná-la entre outras representações e investi-la de outra forma. Assim, o luto pode se definir como um lento e penoso processo de desamor em relação ao desaparecido, para amá-lo de outra forma".

No tempo em que estamos, é necessário reafirmar que o primeiro ponto fundamental a esta construção é a realização da perda, a aceitação da gravidade do que vivemos e dos seus impactos na vida subjetiva. A negação da realidade e da dor que ela comporta somente aumentará o impacto subjetivo do vivido e a conta chegará... E não se trata aqui de pregar um entristecimento prolongado como única resposta à dor! Mesmo durante a pandemia, foi fundamental dar espaço à alegria, à celebração dos encontros possíveis, ao riso, à arte. Conforme pontuado pelo escritor Julián Fuks, em texto recente, "entre alegria e tristeza nem sempre há oposição (...) a alegria é tantas vezes uma desconexão necessária, a quebra momentânea da desolação que permite encará-la com novos olhos".

A melhora do cenário epidemiológico nos convida a um retorno à vida, talvez não a mesma de antes, mas a que ainda se faz possível. Neste processo, será fundamental construir modos compartilhados de lidar com a dor, narrativizar o vivido, contar sobre quantas vezes forem necessárias, escrever a respeito, construir memórias comuns. A experiência recente promovida pela CPI da Covid-19, de dar testemunho aos sobreviventes, longe de ser algo "macabro", como insinuou certo senador, é algo fundamental na acolhida dos que sobreviveram à catástrofe e na construção de uma memória coletiva do vivido, fundamental no processo de elaboração do trauma. Afinal, foram mais de 600 mil pessoas.

E como diz a letra do samba, "a realidade é dura, mas é aí que se cura"... Que a vida e o tempo nos ajudem [email protected] a superar as perdas, que a elaboração da dor dos lutos vividos nos transforme, que possamos nos reconhecer outros diante das perdas e que, enfim, se abram outras possibilidades de estarmos no mundo.

ALEXANDRE MORENO SANDRI, psicólogo, Mestre em Psicologia Clínica pela USP, Especialista em Psicologia do Desenvolvimento pela Unicamp, atualmente Coordenador de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do município de Jundiaí


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