Opinião

A vacina não causa aids

Parece não haver qualquer nível de decência por parte do presidente


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Fabio Jacyntho Sorge
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Em live realizada na última quinta-feira (21), o presidente da República, Jair Bolsonaro, afirmou que pessoas que tomaram as duas doses de vacina contra o coronavírus no Reino Unido estão desenvolvendo aids. Segundo o mandatário, o assunto teria sido tratado em matéria da revista "Exame", sendo que ele teria apenas repetido o que constava na publicação.

A reportagem a que Bolsonaro se refere foi publicada em outubro de 2020 com o título "Algumas vacinas contra a covid-19 podem aumentar o risco de HIV?". O texto da revista diz que, até aquele momento, "não se comprovou que alguma vacina contra a covid-19 reduza a imunidade a ponto de facilitar a infecção em caso de exposição ao vírus."

A estapafúrdia declaração parece vir coroar um conjunto de omissões e trapalhadas que marcaram a gestão do governo federal da pandemia. Aliás, segundo o relatório da CPI da Covid, várias condutas foram criminosas, o que caberá a justiça decidir.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro demonstrou não compreender a gravidade da situação, tendo apostado em todas as soluções erradas possíveis. Jogou contra a necessidade de isolamento social, insistiu na utilização de medicamentos ineficazes como a cloroquina, demorou para contratar a vacina da Pfizer, colocou no Ministério da Saúde um general inepto e trapalhão e agora, como se tudo isso já fosse ruim o suficiente, "coroa" a sua gestão da crise com a pérola de que os vacinados estão desenvolvendo aids.

Em primeiro lugar, vale a pena dizer que não há qualquer estudo sério que dê suporte a essa afirmação. O Comitê de HIV/aids da Sociedade Brasileira de Infectologia, em nota sobre o assunto, esclareceu que não se conhece nenhuma relação entre qualquer vacina contra a covid-19 e o desenvolvimento de síndrome da imunodeficiência adquirida e ainda que pessoas que vivem com HIV/aids devem ser completamente vacinadas para covid-19. O órgão destacou ainda que repudia toda e qualquer notícia falsa que circule e faça menção a esta associação inexistente. Diversos médicos também se manifestaram, esclarecendo que nenhuma vacina causa aids e que essa informação não ter qualquer fundamento científico.

Custo a crer que o próprio presidente da República acredite nisso. A atitude me parece pensada, como sempre, quando se trata de Bolsonaro, para agradar a ala mais radical de seus apoiadores e manter a militância unida para a eleição de 2022, a única coisa pela qual ele efetivamente trabalha. Também é possível que se trate de uma cortina de fumaça, para tirar o foco do relatório da CPI da covid.

De toda a forma, é lamentável que o mandatário da nação se preste a esse tipo de papel, passando um atestado de burrice e ignorância em rede nacional.

A situação superou qualquer limite, tendo o Facebook e o Instagram, em ação inédita, retirado a live do ar. As duas redes sociais alegaram que têm como política a responsabilidade de reduzir a disseminação de notícias falsas.

Como se verifica, parece não haver qualquer nível de decência por parte do presidente Bolsonaro em relação ao que fala, prejudicando esforços, iniciativas e medidas que seriam eficientes contra uma pandemia que já matou mais de 600 mil pessoas.

O mandatário não faz qualquer cerimônia para divulgar notícias sabidamente falsas, para construir uma mentira, não chamaria isso de narrativa, pois acho esse termo um eufemismo tolo, de que as vacinas podem causar aids e, portanto, o seu governo fez bem em demorar para as adquirir e ele acerta ao não se vacinar.

E o pior, nega-se o óbvio, de que somente em razão da maciça campanha de vacinação é que a pandemia passou a arrefecer, com a diminuição dos números de contaminações, internações e mortes. Não é coincidência que isso tenha ocorrido quando mais de metade da população esteja vacinada.

Todavia, é preciso lembrar que Bolsonaro sempre foi um crítico das vacinas e um negacionista, por isso, essa conduta não surpreende, já que o presidente, agora com um relatório da CPI que lhe é totalmente desfavorável, tenta se salvar de qualquer jeito.

Infelizmente, parece que a mentiras de Bolsonaro não tem qualquer limite, colocando em risco a saúde de toda a população. Nenhum país chega a 600 mil mortes à toa.

FABIO JACYNTHO SORGE é defensor público do estado de São Paulo e coordenador da Regional de Jundiaí


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