Opinião

Quem paga a conta dos unicórnios?

O objetivo de uma startup é descobrir um negócio, em plena incerteza


Alexandre Martins
Elisa Carlos
Crédito: Alexandre Martins

Nada se cria, tudo se transforma, isso é crença base para a abundância, lei da natureza. Nós, nossa comida, nossos carros, nosso dinheiro, somos todos feitos da mesma matéria, em diferentes combinações moleculares. A nossa economia, todavia, não acredita nisso, aliás ao contrário, nossa teoria economia é toda baseada na escassez. E em toda relação de escassez, para alguém ganhar, alguém tem que perder.

E, se a economia é baseada na escassez, o capitalismo é baseado na exploração. Isso pelo menos é o que todo mundo que tem aula em escolas tradicionais aprende: empresas nascem para maximizar seus lucros. E para maximizar precisamos aplicar a lógica da escala, em que vamos aumentando a produção e reduzindo os custos para ampliar a margem de lucro final. Faz tempo que eu me sinto desconfortável com essa lógica, lá atrás na faculdade em 2003, sem nem saber que já existiam novas formas de economia, propus um modelo de negócio baseado em reinvestimento constante dos lucros para reduzir o impacto causado pelos consumidores. No meu segundo emprego formal, em 2009 descobri as startups e acreditei fortemente que ali estaria a solução de muitos problemas.

Gosto demais da lógica por trás da raiz do startup way: legitimar, introjetar e lidar com as incertezas. Para mim, beira a esquizofrenia uma startup que usa PMO (forma de gestão baseado na padronização de processos e forte ligação com o plano de ação), que desenvolve seu produto em cascata, ou ainda usa métodos tradicionais de marketing. Eu não consigo entender, para mim uma empresa com essas escolhas não poderia ser chamada de startup. Startups são empresas ou grupos de pessoas em busca de um negócio escalável e replicável. Em busca! O objetivo de uma startup é descobrir um negócio, em plena incerteza. No início, a startup não sabe o que é o produto, não sabe quem é o cliente e não sabe como produzir e muito menos como vender. A hora que ela descobre, deixa de ser startup, vira empresa e então plano de negócios, planejamentos estratégicos, campanhas de marketing convencional ou ainda técnicas de product development começam a fazer sentido.

Em 2020, estava estudando uma disciplina de capitalismo consciente da Babson College, quando me dei conta de uma obviedade. Sendo a economia baseada na escassez, o recurso financeiro é limitado. Ou seja, para que um homus economicus (um indivíduo que viva dentro da sociedade capitalista convencional) tenha muito dinheiro, alguém tem que ter muito menos. Quando fomentamos as startups em vistas da criação de unicórnios (startups que valem mais de 1 bilhão de dólares), estamos incentivando a desigualdade de renda. Isso me veio à tona, quando na semana passada, li uma matéria do Marcos Nogueira na Folha. Ele fez uma desconcertante relação entre a temporada das trufas brancas na alta gastronomia paulistana e a desigualdade social. Ali ele cita que 1% dos empreendedores do Brasil detém quase 50% do dinheiro que gira na economia. Fiquei ainda mais chateada, fazia tempo que não via esses dados. Quem paga a conta dos unicórnios no nosso país é "só" 99% dos brasileiros.

Embora o número seja assustador, a conta não é tão simples assim, muitas das startups beneficiam a vida de muita gente, como o Uber e o Ifood que antes da pandemia em 2019 eram a fonte de renda de quase 4 milhões de pessoas, comparativamente, um número muito maior do que a folha de pagamento dos Correios (a maior do Brasil) de 109 mil funcionários. Ainda em 2019, vi uma pesquisa de que mais de 17 milhões de pessoas geraram algum tipo de renda através de aplicativos. Mesmo reinserindo tanta gente no ciclo econômico, Khosrowshahi (dono da Uber) fatura seus US$ 50 mil por dia, valor que um motorista brasileiro demoraria 10 anos para faturar.

ELISA CARLOS é mãe da Nina e da Gabi, engenheira, especialista em inovação e head de operações da SOFTEX Nacional


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