Opinião

Compromisso dos homens com a anticoncepção

A tradição impõe às mulheres a responsabilidade pela contracepção


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Margarethe Arilha
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Na década de 90 do século passado (século 20) , tive a oportunidade de desenvolver inúmeras iniciativas relativas às implicações da presença ou ausência dos homens no campo da contracepção. Compartilhei esse caminho com muitos pesquisadores e ativistas que, movidos pela defesa dos direitos reprodutivos para as mulheres e para os homens, movimentaram um grande conjunto de produções teóricas e ações de intervenção no Brasil e no mundo. Visavam a mudança de atitudes no campo da reprodução de uma maneira geral, e particularmente no campo da contracepção. Assim, foi grande minha surpresa ao me deparar com a notícia alvissareira: jovem alemã é premiada pela produção de um aparelho que, com um banho de ultrassom paralisa os espermatozoides, neutralizando sua ação reprodutiva. Rebecca Weiss ganhou um prêmio do concurso James Dyson Awards, que tradicionalmente premia para incentivar designers a terem ideias que solucionem problemas.

Weiss é graduada na Universidade de Munique e foi movida a esse projeto por ter sofrido em si mesma as consequências do uso contínuo de anticoncepção hormonal, isto é, teve que enfrentar um agressivo câncer de mama. Decidida a interromper ou pelo menos colaborar com essa saga das mulheres, Weiss conseguiu criar uma simples tecnologia. Com pouquíssimo tempo de ação, o método tem a vantagem de ser indolor. Evidentemente a tecnologia terá que ser testada mais extensamente, no entanto, parece ser um gesto muito positivo por indicar caminhos simples e eficazes de diminuir os processos quase medievais a que as mulheres ainda sofrem em seus corpos para promover a anticoncepção. Se pensarmos com atenção, de fato, a esta altura do funcionamento global, de vasta tecnologia disponível em todos os campos do conhecimento, causa surpresa que não exista por exemplo, algo semelhante a uma fita identificadora dos níveis de açúcar não sangue.

A tradição impõe às mulheres o cuidado e a responsabilidade pela contracepção. E foi com o filósofo mexicano Juan Guillermo Figueroa que, pela primeira vez, pudemos pensar num extenso debate que ele colocou sobre a mesa no campo das ciências humanas. Sem ser linguista ou psicanalista lacaniano, tratou de mostrar como há um viés de gênero no debate sobre reprodução, o que é um fato gerador de grandes dificuldades e consequências de aproximação para a população masculina. Não só a casa e o cuidado com os filhos no geral são vistos coo âmbito das mulheres e do feminino, como tudo o que se refere ao corpo que se reproduz fica "a cargo das mulheres". Da menstruação, por exemplo, tudo o que resta é a TPM. Qualquer homem acredita, de maneira caricata, que é preciso tomar cuidado com esse momento mensal das mulheres, como ouvi recentemente, um verdadeiro workshop com o diabo. Oras, mas quantos homens se aproximaram para efetivamente compreender de que se trata quando falamos em menstruação? Conhecem o ciclo reprodutivo? Sabem o que é o período fértil? Sabem os efeitos de cada um dos contraceptivos? Qual é o compromisso que desejam assumir com suas próprias vidas em relação a ter ou não ter filhos, ou o momento em que desejam tê-los pensando nas consequências de curto, médio e longo prazos desse compromisso?

O preservativo masculino e a vasectomia, em plano mundial, são as duas vertentes disponíveis no cenário da contracepção masculina e são de baixo uso no geral, embora venha crescendo ao longo das décadas. Muitos são os aspectos que limitam a expansão da tecnologia contraceptiva masculina, que vão desde a especificidade da biologia masculina, passando pela maior intolerância dos homens a relativos efeitos colaterais de eventuais hormonais até questões associadas a como os homens se vinculam com a vida e a saúde reprodutiva ou do pouco risco que as empresas farmacêuticas querem correr para produzir novos métodos. Possivelmente os homens comecem a se aproximar mais e mais da participação compartilhada efetiva na anticoncepção. Novos métodos devem vir acompanhados de novas práticas culturais entre os homens. A responsabilidade masculina na contracepção é um debate um tanto quanto esquecido, mas que valeria a pena ser retomado no país. Já é hora!

MARGARETH ARILHA é é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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