Opinião

Questão de ser mulher

Para quem vive com as moedas contadas não é fácil arcar com essas despesas


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Maria Cristina Castilho de Andrade
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Após ler, neste jornal, em 17 de outubro, excelente matéria da jornalista Nathália Sousa sobre a falta de absorventes para as meninas pobres - fato que constatamos -,tenho pensado muito no assunto e conversado com gente adolescente e adulta.

Somente a mulher pode testemunhar sobre as dores da menstruação que, embora transborde o ser mulher, padece no físico e no emocional. São as alterações hormonais que, tantas vezes, se somam a outras amarguras.

As meninas me disseram que, no período menstrual, se sentir mulher as torna mais independentes, contudo, além das cólicas, sofrem com a irritação, a angústia, o nervosismo, o desânimo, ficam mais sensíveis. Não querem que os outros saibam. Falaram-me que se sentem envergonhadas, embora seja algo natural. Há quem também me disse que, nesse período, dói mais é não ter alguém que a "acuda", esteja junto, preocupe-se em saber se está bem. São dores diversas.

Com esse desconforto todo, imagine não ter um absorvente adequado?! Os riscos para a saúde. O medo de que vaze, por exemplo, na escola. É a sua intimidade revelada e por certo poderá sofrer as consequências do bullying. É capaz de ser alvo de brincadeiras de mau gosto. Uma delas contou que, como são duas jovenzinhas em casa, é um absorvente por dia para cada uma delas. Os recursos financeiros não possibilitam dois pacotes.

Para quem vive com as moedas contadas não é fácil arcar com essas despesas. Improvisam. Imagine uma família com três ou quatro meninas e a mãe sendo a única provedora da casa?

Mulheres mencionaram que, sendo impraticável comprar absorvente, já utilizaram ou conhecem alguém que usou ou faz uso de: algodão, papel higiênico, pedaço de espuma de colchão, miolo de pão, barra de calça, manga de blusa, meia, sacolinha de mercado, pedaço de avental, laterais de fralda, ao possuírem algum bebê próximo.

Quando a pessoa não possui nem dinheiro para comprar o necessário de comida, itens de higiene, como absorventes, passam a ser considerados de luxo. Além disso, muitas adolescentes desconhecem a importância da higiene menstrual para a sua saúde.

Assunto tão sério, denominado pobreza menstrual, que chegou ao Senado por iniciativa popular. Em 2014, a Organização das Nações Unidas (ONU) considerou a higiene menstrual um direito que precisa ser tratado como uma questão de saúde pública e de direitos humanos. Segundo matéria do Senado Federal, dados da ONU apontam que, no mundo, uma em cada dez meninas falta às aulas durante o período menstrual. No Brasil, esse número é ainda maior: uma dentre quatro estudantes já deixou de ir à escola por não ter absorvente.

Relatório da Unicef, na mesma matéria, aponta os riscos para a saúde física de um manejo inadequado da menstruação, bem como insegurança e estresse.

Recordo-me da moça de 18 anos. Veio de Minas. Aos dez anos, fugiu do orfanato onde era judiada e chegou a ser abusada sexualmente, inúmeras vezes, por um considerado "colaborador" da entidade. Não acreditaram nela. Na rua, sozinha, foi um passo para cair nas malhas da prostituição. Depois de oito anos no comércio do sexo, suas carnes deixaram de ser novidade. Buscou outros municípios e chegou em nossa cidade.

Não a conhecia quando me chamaram para acudi-la. Instalada em um hotelzinho, quarto sem banheiro, jogada na cama com febre acima de 40 graus. Resistia a ir para o hospital. Temia o desconhecido. Aceitou que a levasse. Da emergência para o centro cirúrgico. Na impossibilidade de comprar absorventes, utilizou um pequeno pedaço de espuma de colchão que entrou no corpo e apodreceu, assim como alguns órgãos.

Ao sair do hospital, me disse que ficara oca e que sua esperança em ter uma família, realidade que ela nunca experimentara, terminava ali. Fez questão de me mostrar, dentre seus poucos pertences, um vestido rosa de bailarina, que usara, aos cinco ou seis anos em uma festa no orfanato. Recordação bonita. Seria para a filha que sonhara.

Dolorosa a pobreza menstrual. Assunto significativo que fragiliza meninas e mulheres empobrecidas.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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