Opinião

A mentalidade integrativa

O foco nos métodos mais tradicionais é o indivíduo e a sua saúde


Alexandre Martins
Alexandre Martin
Crédito: Alexandre Martins

Um comentário que escuto com muita frequência dos meus clientes é sobre a grande evolução da tecnologia na medicina nos últimos anos. Eu, formado há 20 anos, sinto o mesmo e vejo que os ganhos nos últimos anos são progressivamente maiores quando comparados aos que observei no início da minha carreira, me levando a concluir que essa evolução deve, inclusive, estar acelerando cada vez mais.

Exemplo disso são muitos dos recursos que hoje utilizamos em pronto-atendimentos, hospitais e UTIs não eram utilizados no ano em que me formei porque eles simplesmente não existiam naquele tempo.

Este cenário de rápida mudança demanda que os elementos humanos acompanhem este avanço para que possam coordenar e melhor utilizar esta tecnologia, porém, acredito que esta seja a peça que mais resiste à mudança e à adaptação: a mente humana.

Historicamente, o médico que há 40 ou 50 anos tinha como modelo de atuação ser um grande generalista, sendo responsável e atuante no que hoje seriam consideradas várias áreas distintas dentro da própria medicina ou mesmo do campo de outras faculdades da área da saúde, teve que tornar-se nos 20 anos seguintes um especialista focado em pequenos pontos do conhecimento que ele dominava muito bem e passar a depender de outros profissionais para lidar com as outras áreas que já não eram mais do seu domínio.

Esta mudança de postura de generalista a especialista foi a melhor resposta diante do crescimento do volume do conhecimento, mas cobrou o seu preço: a visão do especialista era profunda e perfeita quando as necessidades do paciente eram restritas a sua zona de conforto, porém ambos (médicos e pacientes) se encontravam perdidos quando essas necessidades envolviam vários sistemas ao mesmo tempo, exigindo vários profissionais, normalmente pouco acostumados a trabalhar em grupo, discutir de maneira produtiva ou trocar opiniões.

Neste momento, época em que eu estava iniciando a minha faculdade, começaram a ganhar força as terapias integrativas ou complementares que até então eram chamadas "alternativas", denominação esta logo substituída pois dava a ideia de que eram algo separadas da medicina moderna e não parte dela, algo que muitas provaram ser.

Dentre elas estava a acupuntura, que era então a principal representante da medicina tradicional chinesa (MTC) no Brasil. Por que ela ganhou o interesse do público e principalmente dos médicos tão rapidamente?

Como me ensinou um dos meus professores, o foco nos métodos mais tradicionais é o indivíduo e a sua saúde, ao passo que a nossa especialização excessiva nos conduzia a uma visão míope de somente focar na doença.

Dessa forma, se um dos alunos perguntasse a ele "quais pontos são mais convenientes para se utilizar no tratamento de uma tendinite (uma forma de inflamação) no cotovelo?" seria interpelado em retorno: "quem é a pessoa que está com a tendinite, meu caro?" - continuava ele - " não tratamos tendinites, tratamos pessoas com quadros que convencionamos chamar de tendinite e a abordagem de um indivíduo jovem que trabalha o dia todo com computadores não pode ser idêntica ao que faríamos por uma senhora que acabou de passar por um falecimento na família e passou a sentir dores como tendinite".

Foi como uma descoberta para mim. Até então, pelo pensamento que haviam me transmitido na faculdade, se o problema era uma inflamação, usava-se anti-inflamatório. Acaso fosse dor, usava-se analgésico e assim por diante.

Foi mais uma vez solicitado (depois de 40 ou 50 anos) que o médico investigue o indivíduo como um todo, bem como o ambiente em que ele se encontra, para que use não somente a sua habilidade técnica mas também o bom senso e o espírito humano de compaixão.

Deveríamos, então, entender o papel das emoções nas doenças físicas, as demandas que o meio impõe ao indivíduo e como isso altera a sua saúde e atrapalha a cura da sua doença.

Nos dias de hoje encaro como desafio o desenvolvimento da mentalidade de todas as pessoas, estejam elas junto dos pacientes ou junto dos terapeutas (médicos e seus pares) para que se acompanhe este novo paradigma, integrativo, de uma medicina aberta e armada de tecnologia, mas com as raízes fincadas no espírito humano.

ALEXANDRE MARTIN é médico formado pela Unicamp e especialista em Acupuntura e Osteopatia


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