Opinião

A CPI, a hiperinflação e o carbono

A condição de país retardatário é característica secular do Estado brasileiro


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Miguel Haddad
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Já mencionei antes, em outro artigo, a história da riqueza da Arábia Saudita. Antes um país paupérrimo, com a mudança na economia mundial - de nova matriz energética, baseada no petróleo - a descoberta de colossais jazidas em seu subsolo conduziu o país para a abundância, transformando aquela região desértica em uma das mais ricas do mundo.

O que isso tem a ver conosco? Em primeiro lugar, no direcionamento do olhar. O mundo está sempre mudando e ter o olhar voltado para o futuro é condição essencial para antecipar oportunidades. Os países mais avançados estão sempre sintonizados - e se adaptando - ao novo, em suas mais diversas manifestações, seja na economia ou nos costumes.

O Brasil - a sociedade brasileira -, e isso tem sido objeto de estudos, ao contrário, tem seus olhos voltados para o passado. Basta ver a nossa economia. Séculos atrás éramos exportadores de açúcar. Por um breve período, de borracha, depois café, hoje, além do café, proteína animal, soja e minério.

Na nova Era do Conhecimento, baseada no avanço tecnológico e baixa emissão de carbono, isso continua: somente conseguimos ser competitivos enquanto país rural, e assim mesmo em razão de um grande esforço feito por abnegados em aplicar a Ciência na modernização da nossa produção agrícola.

Mas para aí. O descalabro é tão grande que assistimos ao corte de verbas destinadas à Ciência, à Cultura e a Educação enquanto bilhões destinados à manutenção de privilégios e a assegurar o lucro dos rentistas, permanecem não apenas intocados, mas aumentam continuamente.

A CPI da Covid-19 mostrou como agem, incrustados no aparelho estatal, os agentes do atraso nacional, sem qualquer compromisso com os interesses do povo brasileiro. O seu grau de insanidade beira a demência e causou a morte de milhares de brasileiros. O depoimento dos parentes das suas vítimas foi um dos momentos mais tristes da vida nacional, um sintoma de falência moral que ficará gravado para sempre, ao longo da nossa História.

A condição de país retardatário, com um contingente populacional vivendo na miséria, no qual a fome é uma realidade cotidiana por gerações, agravadas no presente pela pandemia, a hiperinflação e o descaso do poder público, é, infelizmente, uma característica secular do Estado brasileiro.

No entanto, não precisava ser assim. Exatamente agora, com a Conferência do Clima que se inicia hoje, abre-se para nosso País uma janela de oportunidade muito semelhante àquela que se abriu para a Arábia Saudita. Para isso, temos de explorar com inteligência, como eles fizeram, um tesouro que nos legou a Natureza: a Floresta Amazônica.

É verdade que o que o Governo tem feito até agora exatamente o oposto, incentivando a devastação, aparelhando com agentes do negacionismo os órgãos encarregados de sua proteção, deixando a floresta livre e desimpedida para a ação predatória de garimpeiros, comerciantes ilegais de madeira, grileiros que tocam fogo na mata para fazer pasto e áreas de plantio, de tal forma acelerada, que estamos batendo sucessivos recordes de destruição da área verde.

Se voltarmos os olhos para o futuro, veremos o nascimento de uma nova fonte de riqueza, o mercado mundial de créditos de carbono, que, na medida do avanço do desequilíbrio climático, se tornará mais valorizado. Florestas, como a Floresta Amazônica, são biomas capazes de sequestrar - ou seja, de absorver naturalmente o dióxido de carbono da atmosfera, elemento essencial para o seu desenvolvimento - quantidades maciças desse gás, cuja concentração na atmosfera é a principal causa do desequilíbrio do clima.

Ao invés de cuidar desse patrimônio, de preservá-lo, levando em conta ainda que a floresta é uma espécie de gigantesco laboratório natural, no qual a Ciência, em suas pesquisas, poderá encontrar produtos, enzimas e fármacos capazes de turbinar a bioeconomia nacional, como demonstrou o 1º Encontro de Bioeconomia e Sociobiodiversidade da Amazônia, realizado em novembro de 2019 em Manaus, o Brasil dilapida a sua maior riqueza.

Presa do flagelo da covid-19 e da inépcia de seus dirigentes, o povo brasileiro, mesmo em seus sonhos, parece ter perdido a esperança de viver em um país melhor.

Não podemos deixar passar a oportunidade que se abre para nós, como resultado da Conferência do Clima. Vamos mudar o nosso olhar voltado para o passado, aceitar o novo e tornar a sonhar novamente com um Brasil melhor, para nossos filhos e netos.

MIGUEL HADDAD

é ex-deputado federal


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