Opinião

Dom Mário Teixeira Gurgel

Era muito sensível às questões sociais


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Jose Renato Nalini
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Os alunos do Colégio Divino Salvador, que ali fizeram o curso então chamado "ginasial", se lembram do Padre Mário. Magérrimo, sempre sorridente, ensinava matemática. Brincava com os alunos e, às vezes, acertava os desatentos com o cordão de três nós amarrado à cintura. Gostava de chamá-los, carinhosamente, de "jumentos".

Era primo do Padre Paulo de Sá Gurgel, então o fundador e primeiro diretor do GDS, depois CDS, hoje uma potência educacional que orgulha Jundiaí e que ainda observa as diretrizes salvatorianas. Herança do Padre Jordan, o alemão fundador da Ordem, hoje prestes a ser beatificado.

Padre Mário nasceu em 22.10.1921, em Iguatu, no Ceará, e seu nome de batismo era Jesus. Adotou o prenome de seu pai: Mário. Sua família era essencialmente católica. São muitos os Gurgel na vida religiosa. Inclusive recebeu a Primeira Comunhão das mãos de seu tio, Monsenhor Vital Gurgel Guedes.

Veio para Jundiaí em 1931, com apenas dez anos. Fez o Seminário Menor em Vila Arens e foi ordenado sacerdote no Rio de Janeiro, por dom Jaime de Barros Câmara, arcebispo daquela arquidiocese. Na condição de cardeal do Rio de Janeiro, dom Jaime o ungiu Bispo, em 1967. Depois de ser bispo auxiliar no Rio, foi nomeado para suceder o primeiro bispo de Itabira, em Minas Gerais. Ali ficou por vinte e cinco anos, até resignar-se, em obediência ao Código Canônico, pois completara setenta e cinco anos.

Seu trabalho em Itabira foi notável. Era muito sensível às questões sociais e dizia não existir verdadeira democracia, enquanto "uns são mais iguais do que os outros". Iniciou o projeto "Igreja Irmã", adotando a Diocese do Alto Solimões, mais carente do que a de Itabira. Sua casa estava permanentemente aberta a quantos o procurassem. Deu abrigo a religiosos estrangeiros perseguidos, incentivou a criação de novas paróquias, construiu nova Catedral, diante do depauperamento da antiga, percorria assiduamente todos os espaços de sua diocese, tornando-se expressiva concretização de seu lema: "Como quem serve" (Lucas, 22-27).

Sempre esteve à frente de projetos educacionais. Entendia o processo educativo como fórmula transformadora da sociedade. A aquisição do conhecimento deveria servir à causa maior da conversão de todos para uma vida verdadeiramente fraterna, muito distante da corrupção e dos conchavos que caracterizam - de forma lamentável - a política partidária tupiniquim.

Sua lucidez e erudição - falava e escrevia perfeitamente cinco idiomas - o chamaram a exercer cargos de expressão na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, assim como na Congregação para a Propagação da Fé, posteriormente chamada Sagrada Congregação para a Evangelização dos Povos.

Itabira não se esqueceu do seu segundo pastor, que ali esteve de 1971 a 1996. Celebrou condignamente o centenário de nascimento desse "pau de arara" que conquistou as montanhas das Minas Gerais. Conservou, desde sempre, o seu estilo jovial e de excelente humor, tanto que uma das homenagens levou o nome de "um bispo piadoso". Isso em virtude de haver escrito um livro: "Só rindo". Sua evangelização era eficiente e exitosa, porque sabia falar a língua do povo.

Durante todo o seu ministério, esteve à frente da Legião de Maria. A Mãe de Cristo estava em seu brasão, na simbologia de um lírio. Do brasão também constavam três abelhas, a evidenciar a humildade do bispo que não queria permanecer sozinho à frente de sua igreja particular. Insistiu com o Papa lhe desse um Bispo Auxiliar, dom Lelis Lara, que o sucedeu quando resignou e a quem chamava de "meu Cirineu e meu irmão". Partilhou suas responsabilidades com o auxiliar, depois bispo-coadjutor, a quem transmitiu o báculo quando o Pontífice aceitou sua renúncia.

Dom Mário Teixeira Gurgel foi um dos homens mais importantes da Igreja brasileira, notadamente nas Minas Gerais e em Itabira que, por sua iniciativa, passou a ser uma Diocese Itabira - Coronel Fabriciano.

Os jundiaienses que foram seus alunos também se rejubilam com a celebração de sua memória, pois figura indelével para os que tiveram o privilégio de privar de seu convívio.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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