Opinião

A homofobia escondida atrás de um delírio

O jogador se autodeclara de direita, conservador e cristão


Alexandre Martins
Felipe dos Santos Schadt
Crédito: Alexandre Martins

O filho do Superman, que é bissexual, tem um grande poder. Não estou falando da super-força, do raio de calor e nem da capacidade de voar. Estou falando da habilidade de fazer homofóbicos perderem seus empregos. Tudo isso porque um jogador de vôlei teve seu contrato rescindido pelo clube que atuava devido a comentários homofóbicos nas redes sociais sobre um personagem fictício. A justificativa dele era que o quadrinho poderia ferir os bons costumes. O jogador se autodeclara de direita, conservador e cristão. Na lógica dele, e de pessoas como ele, Deus não gosta desse tipo de coisa (homossexualidade). Mas… Como é que eles sabem disso?

Me permita filosofar (afinal, é o intuito dessa coluna).

Os gregos, a partir de Aristóteles, tinham definido que toda a vida estava ligada a um universo ordenado e finito que eles nomearam de Cosmos. Para provar sua existência, os gregos utilizavam do método contemplativo, ou seja, para entender o Cosmos, bastava contemplá-lo. E eles tinham certo sucesso. Veja, eles acreditavam que toda a natureza (incluindo os seres humanos) tinha uma função clara para o funcionamento do universo. Tal como uma máquina, tudo obedecia uma ordem universal: a árvore dá frutos; as lagartixas controlavam a população de aranhas; as abelhas polinizavam… Observar isso era constatar que o Cosmos estava presente.

Séculos depois, uns seis mais ou menos, um grupo específico de pessoas começava a ganhar espaço no tecido social ocidental da época. Após 300 anos da morte de seu maior líder, os cristãos não se interessavam pelo Cosmos e de qual método era necessário para contemplá-lo. Eles queriam mais. Eles queriam saber como contemplar o criador do Cosmos. Eles queriam contemplar Deus!

Como observar Deus? Não era possível, pois Deus não se materializava de maneira concreta. "Vejam, eu sou Deus. Contemplem-me". Não funcionava assim. Portanto outro método de contemplação se fazia necessário e já que não podiam observar Deus, resolveram então dialogar com ele. Como? Simples: por meio da oração. Bastava ajoelhar, juntar as mãos, ligar no Deus0800, e pronto. Do outro lado da linha alguém atendia e você falava com Ele. O problema é que Deus não respondia e você falava com uma espécie de secretária eletrônica celestial.

A oração foi, portanto, o método encontrado pelos cristão de contemplar Deus. Vamos ilustrar com exemplos: João quer respostas sobre sua plantação que não vingou e saber se deve ou não continuar plantando milho. Como já disse, Deus não costumava responder, e João pedia para que Ele se manifestasse de alguma forma. Então, começava a chover e João interpretava isso como sendo a resposta do Criador.

A oração se torna extremamente conveniente, pois você fala à vontade, não tem nenhuma resposta e qualquer acontecimento pós-oração é passível da interpretação de que foi uma resposta celeste. E não sei se você notou, mas falar com Deus e "receber" respostas é absurdamente poderoso, pois você poderá interpretar qualquer coisa como sendo uma resposta de dEle e usar isso para favorecer a você, ao seu grupo ou à sua ideologia.

"Deus não gosta de homossexuais. Eu li na Bíblia". Eu sei. Está em Levítico capítulo 20, versículo 13. E diz assim: "O castigo por actos homossexuais é a morte para ambas as partes; trata-se duma abominação - a culpa recai sobre eles próprios". Ok. Então, só é preciso se lembrar que foi no mesmo Levítico [11:7-8] que ele proíbe comer carne de porco; e [19:27] que fica proibido fazer a barba ou cortar os cabelos curtos. Se você foi no barbeiro e comeu um bacon na sequência, para essa passagem bíblica, você é tão "pecador" quanto o homossexual.

Além disso, o que seria a Bíblia se não um copilado de interpretações sobre Deus e suas vontades? Ao meu ver, parece que algumas pessoas estão apenas escondendo sua homofobia atrás de um delírio cristão: o de que Deus conversa com as pessoas e diz o que ele quer e gosta.

Esse delírio já matou muita gente e vai continuar matando.

Conhecimento é Conquista!

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP


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