Opinião

Questões narrativas

Ford não pretende fazer de seu Lincoln um homem verdadeiro


Alexandre Martins
Rafael Amaral
Crédito: Alexandre Martins

O destemido Luiz Gama (César Mello) avisa os membros do tribunal que ali não se julga apenas um escravo acusado de matar seu patrão. Todo o Brasil, diz o protagonista de "Doutor Gama", cabe naquele cenário. Ele, um advogado negro, confronta o juiz, o promotor e o júri brancos. Confronta o sistema escravocrata e a separação social.

Cinéfilos com alguma bagagem não terão dificuldades para perceber a semelhança entre a estrutura narrativa do filme de Jeferson De, disponível na Globo Play, e a do clássico "A Mocidade de Lincoln", de John Ford. Ambos buscam o mesmo fim: resumir o todo pela parte, os homens - Gama, Lincoln - pela batalha de um único julgamento.

Se o simulacro da História funciona nos contornos do filme americano, com sua inocência latente, em nada ajuda o brasileiro. E não é difícil compreender os motivos por trás desse abismo: Ford não pretende, em momento algum, fazer de seu Lincoln um homem verdadeiro. Ele é um mito, uma miragem, figura de outro tempo e cinema, rapaz simples que se prepara para as grandes tempestades que estariam por vir. Com Gama dá-se o oposto: Jefferson De precisa de um homem de verdade para uma história de injustiças, transpiração e dor.

O que funciona tão bem em uma produção de 1940 pode não funcionar em uma de 2021. E é mesmo preciso que Gama explique o óbvio, ou seja, que o Brasil está em julgamento?

Aproximar "Doutor Gama" de "A Mocidade de Lincoln" chega a ser irônico, e só é possível porque estamos nos domínios dessa santidade incontornável chamada narrativa (termo banalizado nas discussões quase sempre rasas das redes sociais, e para outras finalidades).

Ford ficou famoso como diretor de faroestes. O gênero tem detratores, que veem nele o espaço do homem branco, do patriarco, do índio relegado à posição de animal e do negro ignorante, feito para serviços braçais. Gama não o aprovaria.

São distorções que o cinema, infelizmente, absorveu. Ford não escapou a esses vícios, mas também entregou obras nas quais as minorias ocupavam o centro, nas quais o homem branco era o mais imbecil em tela. Suas personagens quase sempre são erráticas. Em "No Tempo das Diligências", obra-prima, a ação é centrada na carruagem que transporta o resumo da América em formação: um médico alcoólatra, uma mulher grávida, uma prostituta, um banqueiro, um xerife, um jogador e o herói de John Wayne, o maior dos caubóis.

Wayne, por sinal, viveu figuras de moral duvidosa com certa frequência: em "Rastros de Ódio", do mesmo Ford, interpreta o soldado que persegue os índios que mataram sua família e raptaram sua sobrinha. Dos nativos ele quer os escalpos. Odeia-os. Quem deixa as questões cinematográficas de lado e só se apega às sociais tem motivos de sobra para detestar um filme como esse - mesmo que abarrotado de contradições que ultrapassam a evidente dicotomia herói branco/vilão índio. Ford aborda um tempo, seus costumes, e não facilita para ninguém.

É dele o ótimo "Audazes e Malditos", sobre um soldado negro da cavalaria americana acusado injustamente de matar um homem e sua filha. Como no tribunal de Lincoln e de Gama, de novo a nação cabe ali, entre os que pedem a cabeça do inocente e os que percebem um erro em curso. O filme é um pedido de desculpas aos afro-americanos, pouco destacados em filmes de faroeste e cavalaria.

Quem interpreta o soldado acusado é Woody Strode, o gigante de pedra que encarou Kirk Douglas na arena de "Spartacus" e, anos depois, viveu o Cristo negro Maurice Lalubi em "Sentado à Sua Direita", de Valerio Zurlini. O último citado é forte. Aborda a revolta contra o colonialismo no Congo e certamente ganharia a aprovação do advogado brasileiro.

Vi "Doutor Gama" como uma peça falsa a favor de algo verdadeiro ou, dirão alguns, uma causa maior. Não nego suas qualidades, como as cenas impactantes sobre os males da escravidão e o elenco, a começar por Mello, o herói em sua fase adulta. Pena que algumas escolhas - sobretudo as narrativas - tornam o filme involuntariamente artificial.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com


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