Opinião

Paulina Chiziane vence o Camões


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Professor Fernando Bandini
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A escritora moçambicana Paulina Chiziane faturou o Prêmio Camões 2021. Trata-se da primeira mulher negra a receber a premiação, outorgada todo ano pelos governos brasileiro e português a escritores de língua portuguesa. O Camões, o mais prestigiado dentre as premiações para autores lusófonos, já contemplou gente do porte de José Saramago, Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles, Mia Couto, João Cabral de Melo Neto, Miguel Torga, dentre outros grandes.
Não conhecia nenhuma obra de Paulina Chiziane até o ano passado, quando a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) incluiu seu romance “Niketche” na lista de leituras obrigatórias para o vestibular. Li e me entusiasmei com a prosa tão lírica quanto contundente da autora. “Niketche”, cujo subtítulo é “uma história de poligamia”, conta a vida de Rosa Maria -- a Rami – uma mulher de pouco mais 40 anos, casada há 20 com Tony, policial graduado em Maputo, a capital moçambicana. O casal tem cinco filhos. O marido sempre ausente pretexta turnos extras para estar longe de casa. Mas a conversa é bem outra. Rami – protagonista e também narradora da história -- descobre uma amante, Julieta, com quem Tony já tem cinco filhos. E outra, mais outra, e ainda outra... Uau, o dom Juan moçambicano tem um elenco de quatro mulheres além da primeira-dama oficial e a bagatela de dezessete filhos. Um “polígono de cinco pontos”. Acrescentando o marido, forma-se um “hexágono amoroso”, como a narradora define a situação. Quando confrontado por Rami, o homem desdenha a acusação de adultério, respondendo que as mulheres são “pecadoras” e que os homens são “puros”. Mas a roda vai girar de volta.
Rami consegue uma inédita reunião de todas as amantes de Tony e o “esquema” do sultão vai emperrar. A poligamia não está inserida na legislação do país, mas na tradição de algumas de suas regiões (o romance, por sinal, trata de diferenças do norte e do sul de Moçambique quanto ao tratamento da mulher). O que Tony desconhecia é que o homem, nessa história, tem quase todos os direitos, mas também deve algumas obrigações. Depois de muito sofrimento, revoltas, silêncios e armações, Rami provoca uma reviravolta e tanto nesse enredo. Mais não devo adiantar, para não ser acusado de fornecer spoiler não pedido. Recomendo sem demora a leitura do romance. Para conhecer essa narrativa poética a tratar do universo feminino não só moçambicano, mas universal. De histórias que passam por formação muito diferente para meninos e meninas. De valores inculcados naqueles e nessas. E da necessidade de mudanças em costumes arraigados e arcaicos. Uma das histórias mais impressionantes contadas por Rami é o de uma mulher que conheceu, mãe de cinco filhos. Os quatro primeiros nasceram de violências cometidas em quatro diferentes guerras no país. Somente o caçula foi gerado numa relação consentida, com o homem que ela amava. Ou a cena de uma senhora muito velhinha, há décadas submissa ao marido, mas que destempera numa situação impagável num hospital.
Nascida em 1955, em Manjacaze, na província de Gaza, no sul do país, mas desde os 6 anos morando em Maputo, Paulina Chiziane aprendeu com os pais os idiomas ronga e chope. De família cristã, estudou em escola católica, onde aprendeu o português. Formou-se em Linguística pela Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Participou da Frente de Libertação de Moçambique, a Frelimo, nas lutas contra o colonizador português. Com a independência, alcançada em 1975, ingressou como voluntária na Cruz Vermelha, trabalhando por todo o país, às voltas com uma devastadora guerra civil.
Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique: “Balada do amor ao vento”, lançado em 1990 e ainda inédito no Brasil. Publicou também “Ventos do apocalipse”, em 1995, e “O sétimo juramento”, em 1999. “Niketche”, publicado em 2002, recebeu o prêmio literário José Craveirinha. Paulina Chiziane afirmou em entrevista que algumas de suas principais referências literárias são brasileiras. Clarice Lispector e Jorge Amado estão entre elas. Vida longa à dona Paulina e a sua literatura.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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