Opinião

Sua felicidade cabe em um barril?


Alexandre Martins
Felipe dos Santos Schadt
Crédito: Alexandre Martins

O que te faz feliz? Enquanto você pensa eu vou dizer o que me faz feliz. Um exemplo do que me causa felicidade é quando eu me encontro com os meus companheiros de banda para tocarmos as nossas músicas. No começo, o ensaio me alegrava muito. Era de extrema alegria afinar nossos instrumentos, tocar três ou quatro acordes e cantar aquilo que acreditávamos. Quando fizemos nosso primeiro show, os ensaios não me alegravam tanto, pois o show era muito mais legal. Mesmo com pouca gente, a energia da plateia contagiava muito mais do que o monótono ensaio. No show tínhamos um ou outro aplauso pelo menos. Quando fizemos nosso primeiro show para uma plateia grande e um palco maior ainda, os shows menores já não alegravam tanto… Não sei se você percebeu… mas parece que o motivo da minha felicidade foi se sofisticando a cada upgrade no ato de tocar na banda. E a cada upgrade, o ato anterior já não me produzia o mesmo efeito alegrador. É a famosa ideia do “mal acostumado.

Diógenes foi um filósofo grego, contemporâneo de Aristóteles, que ficou conhecido pela maneira radical de viver sua filosofia. Para ele, quanto mais simples fosse a sua vida, mais chances você teria de ter uma vida boa. Por isso, ele vivia no extremo da simplicidade. Ele morava num barril sem nenhum tipo de luxo ou conforto. Consigo, só uma lamparina e as roupas maltrapilhas do corpo. Como ele não desejava absolutamente nada além do que ele tinha, ele não sofisticava seu motivo de felicidade.

Uma vez, Alexandre o Grande - pupilo de Aristóteles, inclusive -, ouviu falar de Diógenes e resolveu desafia-lo. O conquistador macedônio queria provar que todo homem deseja algo e ofereceria ao filósofo qualquer coisa que ele quisesse ter, quebrando assim a sua lógica da simplicidade. Diz a lenda que num dia ensolarado, Diógenes estava em seu barril quando Alexandre se colocou na frente dele e perguntou: “Diógenes, como sabes sou Alexandre o Grande, e posso lhe dar qualquer coisa que você desejar, não importa o que seja, peça e será seu. O que queres de mim?”… E numa simplicidade cínica, Diógenes olhou para Alexandre e disse: “Quero que saia da frente, pois está impedindo que a luz do Sol chegue até mim”.
Incrível! E corajoso, diga-se de passagem. Aposto que o grande Alexandre deve ter ficado muito bravo com Diógenes e mandar matá-lo ali mesmo não seria nenhuma dificuldade para ele.

Mas Diógenes provou seu ponto. Vamos torce-lo aqui. Imagine duas pessoas que morem no Rio de Janeiro. Uma delas teve o prazer de conhecer a Noruega uma vez e ficou maravilhada com a Aurora Boreal, aquele evento natural que o céu fica cheio de rastros esverdeados que só se é possível observar no extremo norte do planeta em noites de rara felicidade. Esse sujeito ficou muito feliz com a apreciação do fenômeno e o céu dos trópicos já não o surpreende mais. Já a outra pessoa ama ver o por-do-sol. Toda vez que presencia o crepúsculo, sente-se feliz. Pergunto: quem tem mais chances de ter mais momentos felizes?

Pois é… O sujeito que se contenta com o por-do-sol. Por que? Oras por justamente ser simples. Para que o outro seja feliz, ele precisa pegar um avião, encarar 14 horas de voo até a Noruega, enfrentar um frio de -25ºC e dar a sorte de ter um céu limpo para observar a Aurora Boreal.

Quanto mais sofisticada for a causa da tua felicidade, mais difícil você vai conseguir ter momentos felizes. Diógenes ensina a ter uma vida simples, com alegrias fáceis de se conquistar, naturalmente acessíveis e sem nenhum tipo de luxo. Porque se você depositar sua felicidade no luxo da Aurora Boreal, ou no luxo de um show para uma plateia grande, o por-do-sol e o ensaio jamais te causarão alegria como causaram um dia. A lição de Diógenes é muito simples: valorize as coisas simples da vida pois assim as chances de você se alegrar são muito maiores e, portanto, ter uma vida boa e com mais momentos de felicidade.

Agora fica a pergunta e você só responde se quiser. Você fica feliz com facilidade ou as causas da tua alegria já se tornaram complexas demais?

Conhecimento é conquista.

 

 


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