Opinião

A estrela de Marques Rebelo

Cantores e cantoras de rádio foram os primeiros superastros


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Professor Fernando Bandini
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O escritor Marques Rebelo é pouco lembrado. Raramente aparece em currículos escolares; não consta das listas de leituras para vestibular; seu centenário de nascimento, em 2007, passou perto das "brancas nuvens" de que fala o poema. Mas ele foi bem conhecido em outras épocas. Já teve seu talento incensado pela crítica e seus livros alcançaram público abrangente e fiel. Entre as décadas de 1930 a 1970, foi aclamado como um dos grandes da literatura brasileira. Eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 1964, figura entre os clássicos do século 20. Mas hoje sua obra anda sumida.

Seu romance mais conhecido, "A estrela sobe", lançado em 1939, vendeu muito na época e ganhou versão para o cinema. Conta a história de Leniza, garota nascida e criada no subúrbio carioca, que sonha ser cantora e brilhar no rádio. Lembre-se de que na década de 1930, o rádio era o grande meio de comunicação, e seus programas de auditório, suas atuações ao vivo consagravam artistas. Cantores e cantoras de rádio foram os primeiros superastros do mundo do entretenimento pop no Brasil. O rádio consagrou Carmens, Dalvas, Emilinhas, Marlenes, Orlandos, Chicos (o Alves, antes do Petrônio e muito antes do Buarque).

Rebelo construiu seus personagens no mundo urbano contemporâneo, povoado por tantos de grana curta e perspectivas limitadas, de trabalhos ingratos e mal remunerados. Sem retórica afetada, com sobriedade e um visível carinho pelos tipos criados, o autor desenha as trajetórias abafadas de seres humanos comuns, das ruas e do subúrbio. O escritor retoma com a pena modernista uma vertente que a literatura brasileira abrira no século 19, com Manuel Antônio de Almeida, e seu "Memórias de um sargento de milícias"; e Machado de Assis redesenhara com "Helena" e em alguns de seus contos. No século 20, Lima Barreto trouxera novamente a perspectiva de gente miúda e batalhadora em livros como "Recordações do escrivão Isaías Caminha" e "Triste fim de Policarpo Quaresma". Rebelo envereda pela vida desses mesmos tipos periféricos que ralam muito. Conta as frustrações e as esperanças sempre renovadas de gente modesta, tantas vezes agredida pela competição de uma sociedade que se transforma. O escritor alimentou sua prosa com o lirismo da memória. Nascido em Vila Isabel, em 1907, no Rio de Janeiro, passou um pedaço da infância em Barbacena, Minas Gerais. De volta ao Rio, ingressou no curso de Medicina, mas não concluiu a faculdade. Trabalhou no comércio e na imprensa. Parte de sua formação literária deveu-se à biblioteca do pai, um químico e consumidor habitual de literatura brasileira e portuguesa. Antes dos 12 anos, o leitor mirim tinha percorrido boa parte do universo de Eça de Queirós e Machado de Assis. E se encantado com Manuel Antônio de Almeida (de quem, mais adiante, escreve uma biografia).

Marques Rebelo é o pseudônimo de Edi Dias da Cruz. Quando decidiu, na década de 1930, encarar profissionalmente a literatura, escolheu o pseudônimo. Revela que as polêmicas levantadas pelos modernistas na década anterior estigmatizaram muitos escritores. Para não causar "aborrecimentos à família", trocou o nome.

De volta à Leniza de "A estrela sobe", acompanhar sua trajetória emociona. Filha do relojoeiro Martin e da dona de casa Manuela, vive numa casa suburbana. Com a morte precoce do pai, a garota passa a trabalhar numa fabriqueta de remédios, etiquetando produtos. A mãe subloca a casa para inquilinos. Assim conhece seu Alberto, um senhor de meia-idade, violonista de primeira. É com ele que Leniza aprende a cantar. Comunicativa, inteligente e ambiciosa, torna-se vendedora de remédios. Percorre consultórios e clínicas no centro do Rio de Janeiro, então capital do país. A cidade ferve, com seus cinemas, cafés e vitrines. Leniza deseja o glamour de uma outra vida, sem tantas restrições e perrengues. E vai atrás de seus sonhos.

A prosa de Marques Rebelo é direta e saborosa. A linguagem bem torneada flui natural e revela a habilidade de um conhecedor de seu ofício. Um escritor que merece ser conhecido. Ou, mais uma vez, reconhecido.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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