Opinião

Estradada vida

Desconhecemos um quinhão considerável do mundo ao redor


Alexandre Martins
Rafael Amaral
Crédito: Alexandre Martins

Anunciada a morte de Marília Mendonça, no último dia 5, perguntei para um amigo quais músicas ela cantava. Tinha ouvido falar na cantora mais de uma vez, seu nome não era estranho, mas dela nunca havia escutado uma música sequer. Se ouvi, passei sem saber. Meu amigo não se conformou: como um jornalista ligado à cultura nunca tinha ouvido sequer um refrão saído da jovem cantora, vítima de acidente aéreo?

Há situações em que nos vemos em uma ilha. O mundo corre à frente e nos damos conta, às vezes um pouco tarde, de que perdemos o bonde da história. Não chega a ser incomum que a cultura de massa passe incólume a alguns - mesmo em tempos de redes sociais e algoritmos treinados para vender. Ainda podemos nos limitar a nossas ilhas particulares.

Não é de hoje que se recorre à ideia de que um abismo separa a "alta" da "baixa cultura", o moderno do caipira, da roda de samba, do pagode da esquina, do funk de salão. Intelectuais, aprendemos ainda cedo, preferem jazz e bossa nova, rock progressivo e música clássica. Ao nos depararmos com o anúncio da morte de uma cantora popular, não conseguimos compreender a dimensão do vazio deixado em tanta gente.

Não é preciso gostar de Marília Mendonça nem de música sertaneja. O ponto é outro: em nossos redutos de conforto, entre pares, desconhecemos um quinhão considerável do mundo ao redor. Basta viajar um pouco e experimentar outros locais para tomar choques de realidade. E nem é preciso sair do Estado ou da cidade para concluir que nossa exceção tornou-se regra - em todos os cantos, todas as esquinas, no som alto de qualquer boteco. Vemo-nos não raro como alienígenas recém-chegados ao planeta Terra.

No fim dos anos 1970, ao ser convidado para dirigir um filme sobre Milionário e José Rico, o grande cineasta Nelson Pereira dos Santos achou a proposta estranha. Artista singular do cinema novo e um dos mais importantes diretores brasileiros, ele, como muitos, não tinha apreço pela música sertaneja - o estilo musical preferido de seu pai. Mais tarde confessou: "fiz o filme para encontrar a música do meu pai". Fez o filme para seu pai.

Ao assistir a um show da dupla, deu-se conta de um fenômeno popular tão grande em sua época quanto o de Marília Mendonça em nossa. Era necessário romper com o preconceito. Milionário e José Rico enchiam estádios, praças, rodeios, circos de chão de terra. Eram engraçados até no nome artístico, como se os mais abastados agora pertencessem ao povão, como se a classe operária - eles eram pintores da construção civil antes do sucesso - tivesse enfim chegado ao paraíso.

Nelson não fez "Estrada da Vida" para ridicularizar os caipiras. Mantém respeito pelos retratados. Milionário e José Rico interpretam a si mesmos. Suas histórias cruzam-se quando ambos tentam a sorte em São Paulo. O filme tem deficiências claras. Os diálogos são canhestros, os coadjuvantes não ajudam. Nelson contorna as fraquezas enquanto mira na comédia. Os músicos não podem ser outros senão eles mesmos. Um filme do interior e de um Brasil aparentemente descolado, com tipos comuns e a ingenuidade que dispensa o psicologismo. Em cena, o caldo popular que deu luz a Amácio Mazzaropi.

"Estrada da Vida" é um capítulo estranho em filmografia forte. Nelson até então tinha preferência por ambientes como as favelas do Rio de Janeiro e os rincões do Nordeste. Seu "Vidas Secas", baseado no livro de Graciliano Ramos, é o oposto da história cômica dos músicos abençoados por Nossa Senhora Aparecida: é a jornada dos flagelados, dos perdedores, gente sem milagre.

Curioso constatar que uma farsa travestida de cinebiografia - na forma proposta, na recriação primária e fantasiosa dos migrantes na capital - pode ser tão rejeitada por determinado público quanto a tragédia dos retirantes nordestinos. Há quem não suporte o Brasil na tela do cinema, mesmo que por caminhos diversos. "Assim como o fazendeiro de Alagoas não queria que eu mostrasse o flagelado, o representante da classe média tem vergonha de sua realidade, ao mesmo tempo tão próxima e tão distante", declarou Nelson ao Jornal do Brasil, em 1981.

No Brasil, o caipirismo é negado pelos mesmos que não resistem à sofrência de Marília Mendonça e ao modão de Milionário e José Rico.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista; escreve em palavrasdecinema.com

 


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