Opinião

O Geraldo da Mariazinha

Uma vida contra o fascismo da ditadura


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Jose Renato Nalini
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18 de novembro de 2021, nascia em São Paulo o Geraldo de Camargo Vidigal. Filho de família ilustre, descendente dos Camargos, que provinham de João Ramalho. Em novembro de 1937, com 16 anos, prestou concurso para o Pré-Jurídico, habilitando-se para ingressar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Em 1945, Vargas era deposto, no ano em que Geraldo colava grau. Mas por que levou oito anos para o bacharelado de um lustro? Porque foi um dos quatro estudantes de Direito da Velha e sempre nova Academia convocados para integrarem a FEB - Força Expedicionária Brasileira. Foi para a Itália, como soldado do 6º Regimento de Infantaria, lugar pelo Brasil na Segunda Grande Guerra Mundial.

A saga dessa convocação é narrada no livro "O Aprendiz de Liberdade - Do Centro XI de Agosto à 2ª Guerra Mundial", publicado pela Saraiva em 1988. Tenho um exemplar autografado: "Ao Magistrado José Renato Nalini, velho amigo e, antes, aluno exemplar". Sim, fui aluno de Geraldo Vidigal na pós-graduação na São Francisco, nos idos de setenta. Ele ministrava Direito Econômico, em parceria com Otávio Bueno Magano.

Era um homem erudito, profundo conhecedor da matéria, mas sisudo. Muito sério. Não se relacionava com os alunos, que eram uma classe reduzida, como são as pós-graduações, ao contrário de Otávio Magano, muito simpático e jovial.

Eis senão quando, Geraldo Vidigal e Mariazinha Congílio se casam. E eu fui padrinho dela, juntamente com Maria Luíza. Também apadrinharam Ruth e Ives Gandra da Silva Martins, Daisy e Olavo Setúbal, Vera e Antonio Carlos Alves Braga.

Foi uma transformação para Geraldo. Passou a sorrir, a evidenciar o seu humor, a compor músicas, inclusive o "Hino da Pensão Jundiaí", aquela tertúlia que Mariazinha iniciou e sustentou durante décadas, a reunir jundiaienses e amigos de Jundiaí em vários ambientes paulistanos.

Mariazinha impregnou Geraldo Vidigal de alegria e de entusiasmo. O poeta da Geração de 45, juntamente com Péricles Eugênio da Silva Ramos e Domingos Carvalho da Silva, também integrantes da Academia Paulista de Letras, se tornou outra pessoa. Fenômeno que outros amigos também constataram.

A própria Academia se surpreendeu com a conversão do sorumbático Lente da São Francisco no jovial "Geraldo da Mariazinha". Esta jundiaiense que tanto fez por sua cidade adotiva, não teve substituta. Faleceu em 2004 e Geraldo faleceu em 29.08.2010, em Campinas.

Por sugestão de Ives Gandra da Silva Martins, a sessão de 18.11.2021 da Academia Paulista de Letras homenageará Geraldo de Camargo Vidigal. Esteve na Instituição, ocupando a Cadeira 24, desde 1974, até sua morte.

Residiu em Jundiaí e era um ardoroso fã de nossa cidade. Aqui continuou a poetar, escrevendo poesias como "Síndrome": "Sei que o tempo relativo varre espaço virtual/Ceguei sóis, no meu caminho./Não quero expor-me, sozinho/sem saber qual o motivo/qualquer água me embebeda/qualquer sede me devora/qualquer linha me apavora/Mordo as síndromes do mal".

Assim como levou o Direito Econômico a sério, também concedeu à poesia um lugar honorável em sua profícua existência. Quando o casal ainda residia à avenida São Luís, 43, ele escreveu o "Edital aos Poetas", que depois serviu de nome para um livro publicado pela Green Forest no ano 2000: "Convoco, por edital/Todo o corpo social/A reunir-se. A Assembleia/Elegerá, nesse dia/A nova Diretoria/O Conselho Consultivo/E os Suplentes, afinal. / Quem quiser candidatar-se/Deve portanto apresentar-se/Entregando sua chapa/Ou pleito individual/À Avenida São Luís, 43, portaria/Até 9 deste mês/Não há outra ordem do dia/Relato, demonstrativo/E nem mesmo expediente/Pois poeta não tem vez/Nem caixa, nem capital/ (Aos cofres da Poesia/Não chegou nem um tostão/O Estado deixou na mão/Toda esfera cultural)".

Uma vida contra o fascismo da ditadura e o reconhecimento de que nem sempre Estado e cultura se dão as mãos - pois a cultura é acusada de subversiva - merece uma celebração. É por isso que seus confrades da Casa de Cultura por excelência do Largo do Arouche, reverenciam Geraldo de Camargo Vidigal, no dia em que completaria cem anos.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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