Opinião

Céu preferido de Deus

É tempo de projetarmos o nosso olhar para o nosso interior


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Maria Cristina Castilho de Andrade
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Conviver com histórias divinas vem de nossa família. Nosso pai repetia sobre a graça alcançada, no início da década de 40, através de Nossa Senhora Aparecida. Teve um estreitamento no esôfago e as perspectivas eram ruins. Numa segunda consulta, na sala de espera do médico, com novos exames, rezou uma oração a Nossa Senhora Aparecida, que sempre trouxe na carteira. Constatou-se que o estreitamento regredira alguns milímetros. Ou seja, o organismo reagiu e acabou curado. Partiu no tempo do Céu.

Quantas graças a nossa mãe alcançou ao longo da vida. Era da oração fervorosa. Uma delas, que chorava ao relatar, em meados do ano passado. Fora ao banheiro de madrugada sem a bengala. Ao sair, acabou a força. Ficou tensa. Como voltaria para a cama no escuro? Na época com 96 anos e dificuldade de equilíbrio. Como dormia com a porta do quarto fechada e eu, por ter limites de audição, ao me chamar não ouviria. Noite de frio intenso. Imaginou que se ficasse no banheiro poderia ter um problema pulmonar. Pediu a intercessão da Senhora Sant'Ana de quem era muito devota. Sentiu-se de imediato segura e foi caminhando. Quando se inclinou, pegou no travesseiro. Não teve dúvida de que a Senhora Sant'Ana, junto com a filha, Nossa Senhora, a conduzira. Partiu no tempo do Céu.

Tenho minhas devoções que muito me falam à alma e me convidam à bondade. Os santos do Carmelo, principalmente, me chamam demais a atenção. Quem por primeiro me comoveu, aos cinco anos mais ou menos, foi o Coração de Jesus, Nossa Senhora e São José. Coração de Deus como anuncia o Profeta Ezequiel (cf. 34, 16): "A ovelha perdida eu a procurarei; a desgarrada eu a reconduzirei; a ferida eu a curarei; a doente eu a restabelecerei; velarei sobre a gorda e a vigorosa. Apascentá-la-ei todas com justiça". Aos nove ou dez anos, já me encantava com Santa Teresinha do Menino Jesus. Li "História de uma Alma", pela primeira vez, aos 12 anos. Aos 15, tornei-me filha espiritual, no Carmelo São José, da Madre Mestra, Irmã Maria Inês.

Neste mês, no Boletim de Espiritualidade da Ordem dos Carmelitas Descalços de Portugal há um artigo muito interessante sobre Santa Teresa D'Ávila (1515-1582). Na capa, uma frase do Papa Francisco em sua audiência geral de seis de outubro deste ano: "Nos desafios da vida, permanecei sentinelas e testemunhas fiéis dos sinais de Deus na história: aproximais o Céu dos homens! Sede, para vossos irmãos, a Bênção de Deus". Mas voltando ao artigo: "Teresa, a grande" do Frei João Costa, OCD. Comenta o autor que, na época, enquanto a Europa se alegrava com as descobertas, ela afirmava: "Ótimo que nos encantemos com tão grandes descobertas e triunfos que vindos de tão longínquas paragens, maravilham o nosso olhar europeu. (...) Mas, ó meus irmãos e irmãs que, de tanto olhar para fora, nos espantamos com tão maravilhosas maravilhas, reparai: Este é também o tempo de projetarmos o nosso olhar para o nosso interior. Olhemos para fora, sim, mas, sobretudo, volvamo-nos para dentro, caminhemos, naveguemos para dentro, pois aí, em nosso coração e consciência, habita o bom Deus! (...) Reparai bem: Vedes como na sua bondade Deus fez caber a sua imensa imensidão em nós? Alcançais perceber que somos casa de Deus? (...) Tendes, temos todos o céu dentro de nós! (...) Se quereis surpreender e maravilhar não precisais de cruzar oceanos! Tende coragem e adentrai-vos pelos oceanos infinitos do céu do vosso coração! Caminhemos, vamos até ao centro de nós mesmos, a esse lugar sem lugar, onde só Deus mora! (...) Não vedes que cada um é o céu preferido de Deus? (...) Busquemos a Deus em nosso coração com a intensidade dos amigos que se amam e se buscam..."

Refleti sobre o quanto preciso melhorar o meu céu preferido de Deus...Falta-me tanto!

Como colocou o Padre Márcio Felipe de Souza Alves, Cura da Catedral NSD, em sua homilia plena de sabedoria na Missa de Todos os Santos, há uma marca por Deus, em nosso coração, que ninguém pode tirar, mas é preciso, nas tribulações - e não são poucas - lavá-lo no sangue de Cristo.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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