Opinião

Novembro azul

O homem brasileiro pouco se cuidava


Alexandre Martins
Alexandre Martin
Crédito: Alexandre Martins

Desde 2011 iniciou-se a campanha parceira do "outubro rosa", cujo foco principal seria a prevenção das consequências mais graves do câncer de próstata, através do seu diagnóstico precoce. Fato é que, pela sua localização dentro da cavidade pélvica, a próstata (órgão do sistema reprodutor masculino) apresenta sintomas de crescimento exagerado (e por vezes maligno) somente quando já em estágio avançado, necessitando de tratamento complexo e algumas vezes insatisfatório.

Os benefícios dessa campanha, a meu ver, foram além do esperado: começou a conscientização não só desta modalidade de câncer, exclusivamente masculina, tão importante para o homem quanto o câncer de colo de útero e mama são para o público feminino, mas trouxe para o grande público a conscientização da saúde masculina em seus muitos aspectos.

Percebeu-se então que, até por aspectos culturais, o homem brasileiro pouco se cuidava e só procurava auxílio para tratamento de saúde quando a situação se encontrava insustentável. Quando analisado este comportamento entendemos que muitas vezes era advindo do estereótipo de "pilar forte e inatingível", destinado pela nossa sociedade à figura masculina (muitas vezes também figura paterna e provedor de uma família).

Estereótipo esse sendo aceito, levava a um comportamento negligente com a própria saúde, uma vez que - como se dizia no coloquial - "quem procura problemas os acha…".

Desde então, é crescente o público masculino no meu consultório (que antes não chegava a 20%), muitos com interesse em como podem construir a saúde, principalmente no que se refere a parte "masculina" dela, conforme é sugerido na campanha. Surgiram muitos questionamentos sobre a andropausa, uma queda dos hormônios caracteristicamente masculinos devido a idade, que provoca sensível perda do vigor físico e sexual, coisa que antes da campanha não era do conhecimento da maioria.

Como já disse em outros textos, a medicina tradicional chinesa (MTC) preconiza construir saúde como a melhor forma de prevenir a doença. Segundo esse pensamento, o cultivo da polaridade YANG do organismo, energia de característica expansiva e caótica, muito associada nos textos clássicos com o masculino, é um bom começo.

Essa energia surge em centros energéticos dentro da nossa pelve, próximo à base da coluna vertebral (coincidência com a localização da próstata?) e se exterioriza notavelmente no ponto logo abaixo da segunda vértebra lombar, o chamado "mingmen" ou, em tradução aproximada, o "portal da vida", pois daí começa a força para toda a atividade e virilidade do organismo.

Tanto homens como mulheres têm a sua energia YANG se manifestando fortemente neste ponto, mas nos homens é especialmente importante que ele seja estimulado, pois, segundo a MTC, a estagnação da energia nos níveis inferiores a este ponto pode gerar o estímulo para o crescimento prostático. Por isso no oriente são muito valorizados exercícios que atinjam a região da musculatura entre o genital e o ânus, o chamado assoalho pélvico, movimentando a energia da região e evitando o seu acúmulo.

Existem exercícios específicos em disciplinas como o chi kung (prática de mobilização energética chinesa através de movimentos e da respiração) e mesmo dentro da yoga que podem ser praticados por homens e mulheres, que previnem e tratam distúrbios de intestino e miccionais e ativam a circulação sanguínea da região.

Contudo, além destes exercícios específicos, a prática de levantamentos de peso e agachamentos (este último é apelidado de "o rei dos exercícios" no meio de academia) pode fortalecer a região e ser muito benéfica.

Na cultura ocidental moderna a pelve é esquecida, seja porque passamos muito tempo sentados (na cultura oriental mais antiga e tradicional, uma posição de descanso é a posição "de cócoras", um tipo de agachamento) ou seja porque culturalmente ao homem não era permitido movimentar os quadris, associando-se o movimento à uma fraqueza ou mesmo à feminilidade.

Acredito que a oportunidade de discutir e mudar essas crenças adquiridas de uma cultura que não faz mais razão de existir é tão importante quanto a visita anual ao colega urologista, pois permite o cuidado constante com a saúde masculina e não somente em um mês do ano.

ALEXANDRE MARTIN é médico formado pela Unicamp e especialista em Acupuntura e Osteopatia


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