Opinião

Sobre o amor e o perdão

Está embutido no perdão deixar de ter mágoa, raiva ou até ódio


Alexandre Martins
Anna Fossen
Crédito: Alexandre Martins

Caros leitores, vocês já experimentaram perdoar alguém? Certeza que sim. Desconheço tarefa mais árdua que essa.

Primeiramente, devemos pensar que só nos ferimos por aqueles a quem nos ligamos por amor. O que nos leva a pensar que o perdão é um laço, que desenvolvemos a partir de inúmeras expectativas afetivas. O esquema é conhecido, amamos uma pessoa em qualquer nível de nossa vida, algo acontece, supostamente o outro nos fere e nos causa imenso sofrimento e neste ponto nos chega as questões sobre se devemos ou não perdoar.

Segundo nossa tradição judaico-cristã o perdão é o mais sublime dos atos, algo consolador, na medida em que nos traz para mais perto das condutas de Jesus, que se ofereceu à morte para que fossemos perdoados de nossos pecados. Isso nos fala de uma atitude que, pese a qualquer mágoa, implica a regeneração do laço de amor. Está embutido no perdão deixar de ter mágoa, raiva ou até ódio e refazer o caminho que levou o sujeito e seu afeto até o amor. Porém, há aqui um enorme benefício para quem perdoa, sendo esta uma das máximas cristãs, pois tal movimento agradaria extremamente a Deus. Sinceramente, não sei se para a condição humana isso seria possível, inclusive me pergunto constantemente se já assisti a algum ato verdadeiro de perdão, tendo como parâmetro os ensinamentos religiosos.

Se nos afastamos deste contexto, o ato de perdoar passa ser uma tentativa de escamotear o suposto mal que nos foi infligido, sair do afeto rancoroso e voltar a sentir amor, sem que haja benefícios místicos e contando que possamos nos permitir sentir raiva e ódio. Concretamente, perdão não é esquecimento, é colocar na conta da existência humana a possibilidade de erro, ou seja, da imperfeição, da maldade, do egoísmo e da distração. Atitudes que nos causam dano vão da pura perversão humana até a mais ingênua desinformação.

Entre o amor e perdão o que nos paralisa é o ódio, esse gêmeo siamês irritante do amor. Ele nos toma a alma e nos petrifica, principalmente porque nossas fantasias inconscientes mais sombrias nos dizem que deixá-lo aparecer nos levará a atos nefastos, e isso não é de todo impossível. O ódio nos afeta a ponto de nos levar ao pior. Para nossa própria proteção, transformamos ódio em mágoa, o que nos mostra uma saída mais comedida, porém muito mais dolorosa. Ficar magoado é um sem-fim de sentimentos que não deixam de se inscrever nos pensamentos e ações de cada sujeito. Um inferno em vida. Uma fonte inesgotável de dores variadas.

A mágoa nos faz vítimas de outrem e a partir disto o drama se instala e as fantasias deixam de ser "criminosas" para serem tristemente romantizadas. É fato que no inconsciente elas passam a ser mais suportáveis e socialmente são menos perigosas. A vitimização é patológica em alguns casos, torna-se uma forma de viver a vida e de estabelecer todo e qualquer relacionamento. Também é uma maneira muito disfuncional de controlar o ódio
e o amor.

Sem embargo, se pensamos que o Universo não faz vítimas, a exceção das vítimas de casos concretos de perversão e maldade, cabe-nos uma profunda reflexão sobre que brecha permitimos que fosse aberta na relação para que as pontes do amor se rompessem. O fato de que alguém venha a nos magoar não tem relação com a culpa, mas sim com a responsabilidade, trazendo à baila a questão sobre o que se fez desta relação e do que se fará a partir da possível ruptura.

É nesse sentido que perdoar pode ser libertador, porque, ainda que não haja esquecimento, haverá um passo adiante que extingue o sofrimento, a vitimização, e uma tomada de decisão de manter ou desfazer o laço afetivo. Pode-se concluir que, ficar retido na mágoa é tomar veneno e querer que o outro morra. Acreditem, isso nunca funciona.

ANA CLÁUDIA FOSSEN é psicóloga e psicanalista, graduada em Psicologia pela USP e pós-graduada em Psicologia e Filosofia pela Universidade Complutense de Madri-Espanha


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