Opinião

O impossível de viver

Onde está a racionalidade de tanto sofrimento?


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Margarethe Arilha
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Um de meus grupos de Whatsapp hoje me mostra em sequência duas mensagens atordoantes. Um delas, de setembro, a outra de ontem. Uma delas fala das ilhas de Faróe, um arquipélago autônomo da Dinamarca. Desconhecia Faroé. Desconhecia a matança. A outra mensagem fala do Complexo de Salgueiro, uma grande comunidade pobre do Rio de Janeiro, Brasil. Uma versa sobre 1400 jovens golfinhos massacrados, numa matança ritualística que se desenvolve anualmente naquele local, desde 1298. A outra mensagem fala sobre jovens humanos que, cercados por uma operação policial, não tiveram condições de sair para tentar uma vaga universitária gratuita pelo Enem. Massacres. Massacres. Meu coração parece não suportar mais. Massacres, mais mortes e massacres, mais ciladas, mais obstruções. Fecho os olhos e penso num mundo que me coloca em ciladas, constantemente. Olho para os meus pés de manacá, que me olham com tanta singeleza e me recordo da deliciosa e ingênua cantiga "l"á em cima tem um pé de manacá, nós vamo casá, nós vamo prá lá". O que aconteceu? É mesmo o mesmo mundo? Tudo isso foi sempre assim? Ou a mudança ocorreu e não percebi? Onde está a racionalidade de tanto sofrimento?

Respiro e procuro ainda dar espaço para os meus neurônios e meu coração bombarem alguma emoção apaziguadora e trazer, assim, alguma ideia que permita sonhar com o lugar do perfume do manacá, onde o conforto do amor possa existir. Sem maiores ameaças. Imagens e palavras podem nos alcançar e atordoar. A constância e permanência do ar, de ameaças de toda ordem, continuamente, começam a fazer pensar de que matéria somos feitos? Como suportamos tanto sofrimento? De onde a capacidade de superação? O efeito de superação, assim como o que nos dificulta a vida, vem da própria vida. O agarramento à alegria, a alguma alegria, a fatias de amor podem vir a surpreender.

O empuxo a superação, a dedicação, a fazer o máximo que for possível, fazer de positivo, de dedicação podem nos fazer encontrar alguma guarida, algum mecanismo de amor e de superação. Alguém pé de manacá que nos dê guarida, que nos represente de fato. A psicanálise vai nos ensinando como temos em nosso registro linguístico redes de significantes que, encadeados, nos permitem reeditar percepções e memórias que nos salvaguardam. Para mim, os pés de manacás, com suas memórias, nos tornam benfazejos às nossas angústias. Quando as pulsões de morte se apoderam de nossas dinâmicas, linguísticas outras podem surgir e elas podem nos dar suas mãos e nos fazer seguir para outros bailes.

Somente um aroma de manacá pode tentar me fazer superar uma imagem brutal da morte de 1400 golfinhos mortos de uma vez nas ilhas de Faroé, na Dinamarca. Parece que, agora, neste ano de 2021, um alerta geral permitirá uma mudança, ou pelo menos o registro da indignação de muitos populares ao redor do mundo, que pressionam por um reposicionamento das autoridades. Por outro lado nós, do Complexo do Salgueiro, também estamos começando a assinar uma petição para que os jovens impedidos de circular e de se dirigir à prova do Enem não sejam mortos como golfinhos, mas que possam circular livremente nas águas das ruas urbanas, e que possam se dirigir livremente a uma nova prova a que tem direito de fazer, e a uma vida digna , em última instância. Que o exame se repita para os que foram privados da liberdade de participar.

Me convenço com Zizek, um filósofo europeu, que devemos seguir as palavras que nos conduzem a um comportamento mais civilizado, de maior esperanças, rumo a um mundo civilizatório que, em última instância deve seguir existindo. Com seus impossíveis, com suas torturas, mas com sua pequena capacidade de transformação, ainda assim devemos gerar possibilidades. Há infinitas, e escrevo para que possamos nos recordar disso.

Que ganhemos a ingenuidade e o aroma dos manacás em cada circunstância que for possível, que colhamos esses buquês de tal forma que possam nos fazer encontrar rios de amor e de beleza e que possam assim contribuir com nossa vontade de seguir vivendo, como outros que nos antecederam fizeram.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


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