Opinião

Qual a próxima regra do jogo?

Não existe uma única pessoa no mundo que tenha todas as respostas


Alexandre Martins
Elisa Carlos
Crédito: Alexandre Martins

Em 1965, Gordon Moore (então presidente da Intel) trouxe a perspectiva exponencial de aumento de 100% de performance dos semicondutores a cada dois anos, sem acréscimo de custo. Para nós, leigos, isso significa que nossos celulares e computadores ficam duas vezes mais rápidos a cada dois anos.

Desde então, a Lei de Moore vem definindo as regras do jogo do mercado. Com objetivos claros (aumentar a performance o mais rápido possível) as empresas mais ágeis puderam sair na frente, baratearam a inovação, habilitaram tecnologias nas mais diversas áreas e criaram um ambiente propício para o nascimento de um novo tipo de empreendedorismo, as startups.

Mas como tudo é impermanente, Carl Anderson, pesquisador da IBM, em 2014, foi o primeiro de muitos que visualizaram o fim da lei
de Moore.

Tecnicamente ainda é muito provável que continuemos a gerar grandes saltos de performance nos computadores e gadgets, ainda mais com o avanço da computação quântica (que muito provavelmente não chegará ao mercado de massa antes de 10 ou 15 anos). Mas o que vem se discutindo é sua importância na definição das regras dos próximos anos, dessa nova era de inovação que estamos criando.

Passamos 60 anos pavimentando uma rede complexa de recursos, colecionando cada vez mais dados e em situações sempre diferentes, com maior capacidade de armazenamento e de geração de informação.

Passamos os últimos anos acreditando em previsões, em controle de linhas de produção para entregarmos aparelhos cada vez mais potentes. Sempre em busca de mais resultados, maiores números e maior alcance, esse estilo de business gerou efeitos colaterais sociais e ambientais importantes que nos permitiu perceber claramente nossa interdependência como humanos entre si e com a natureza.

Especialistas, como Greg Santell (Harvard Business Review), Peter Diamandis (founder da Singularity University), Zaid Hassan (escritor best-seller Social Labs Revolution) também acreditam no fim da lei de Moore como instituição informal e nos convidam a olhar para essa abundância de tecnologia com outro enfoque, como uma oportunidade preciosa de criar um novo mundo, de aplicar as tecnologias para em vez de gerar disrupções mercadológicas, resolver os grandes desafios da humanidade.

E agora, sem a lei de Moore, em um mundo absolutamente complexo e interdependente, as regras não estão claras, não temos um mapa. Greg Santell chama esse nosso momento de Crossing the Rubicon, uma alegoria à travessia que Julius Caesar fez do rio Rubicon na Itália em 49 a.C. à revelia do Senado Romano. Essa decisão repercutiu no nascimento do Império Romano, colocando o ditador no ápice da sua importância histórica. A leitura de Greg é que, assim como Julius Caesar, nós também estamos em um momento em que a partir desse ponto não tem mais volta e que também não sabemos navegar.

Citando Dharemendra Modha, líder do time de desenvolvimento de chips neuromórficos da IBM: "estamos trabalhando em um território desconhecido, não existe uma única pessoa no mundo que tenha todas as respostas." Historicamente, já sabemos, que em situações de alta complexidade, a colaboração e a multidisciplinaridade são cruciais. Semana passada a SOFTEX e a RNP (Rede Nacional de Pesquisa) organizaram um workshop fechado para os especialistas em computação quântica e em uníssono, eles diziam, para que avancemos é preciso que haja o encontro de especialidades, é preciso que alguém promova e facilite a conversa entre engenheiros, físicos, matemáticos, cientistas de dados.

Em ambientes propícios, com pessoas e propósitos alinhados, com o tempo, as propriedades emergentes que Fritjof Capra (físico, que compôs a teoria dos sistemas) tanto citou, começarão a aparecer: novos modelos de negócios, novos formatos de relacionamento comerciais e novos produtos, novas estradas e novas regras. É o momento de aprender a lidar com a incerteza, construindo o futuro através da experimentação, da colaboração e do foco na descoberta

ELISA CARLOS é mãe da Nina e da Gabi, engenheira, especialista em inovação e head de operações da SOFTEX Nacional


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