Opinião

Gratidão é uma quimera

Devedor insolvente de inúmeros seres humanos


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Jose Renato Nalini
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Por gratidão não se espera! Gratidão é uma quimera! Ouvi isto estes dias e já havia comprovado a verdade do asserto. É paradoxal que o beneficiado tenha certa ojeriza de quem lhe estendeu a mão. Seria algo ligado a complexo de inferioridade? Passaria pela cabeça do ingrato um pensamento como "Quem me socorreu viu que eu era frágil. Não gosto de me lembrar disso".

Por esse motivo é que procuro acertar minhas contas com aqueles que me ajudaram e com muitos que continuam a me auxiliar na caminhada que já se faz longa. Meus pais foram heróis. Não era fácil educar quatro filhos, com os ganhos de quem deixou a condição de assalariado e tentou empreender. E não foi bem-sucedido. E ainda acometido de nefrite, que levou longos anos para debelar.

Com sacrifício, os quatro filhos obtiveram o grau universitário. Todos na PUC-Campinas. Avós e tios maternos, presentes sempre. Tantos primos, sempre desse lado. Mas uma sucessão de pessoas foram surgindo. Como Nela Petroni, que pagou a passagem de ônibus num domingo em que o cobrador não quis aceitar o passe escolar e meu irmão começou a chorar.

Depois Waldemar Gonçalves, que me fez começar a escrever em "O Jundiaiense". Vitória Furlan de Souza, que me abriu a oportunidade de trabalhar no Hospital do Sesi. Jacyro Martinasso, João Fernandes Gimenes Molina e Ademércio Lourenção, que me incentivaram a estudar. Lincoln Carvalho Soares, que me salvou quando o chefe do Departamento de Pessoal da extinta Companhia Paulista de Estradas de Ferro queria que eu me exonerasse, porque "estudo era incompatível com trabalho". Eu era praticante de escriturário, referência 13. Não podia deixar o emprego, senão teria de interromper a Faculdade de Direito.

Arcanjos sempre estiveram ao meu lado: Generoso Mário Bocchino fazia minha declaração de IR, desde que me vi obrigado a entregá-la. Mariazinha Congílio, tão dedicada e acreditando em meu futuro. Walmor Barbosa Martins, que me levou para a sua primeira gestão na Prefeitura e me concedeu conhecer as entranhas de nossa Jundiaí!

Vicente Genovez, que me fez prestar o concurso para o Ministério Público, para o qual não estava animado, pois não me considerava preparado, apesar do incentivo de Jorge Luiz de Almeida. Ajudava-me com os processos que eu trazia de Votuporanga, pois não tivera a mínima experiência forense.

Pessoas que sequer conhecia começaram a me prestigiar quando era Promotor de Justiça: Geraldo de Faria Lemos Pinheiro, magistrado exemplar, elogiava os meus trabalhos e já torcia para que eu fosse para a Magistratura. Rubens Teixeira Scavone, fornecendo leitura e cobrando minha interpretação sobre os autores aos quais me apresentou. Ele se aproximou de mim, graças ao exagero de avaliação de meus modestos méritos, ação verdadeiramente afetiva, feita por sua tia, Rosa Scavone, madrinha de casamento de toda a família. O Procurador de Justiça Djalma Negreiros Penteado, professor e Procurador de Justiça, foi apoio certo em horas incertas.

Na primeira promoção como Promotor de Justiça, contei com Orlando Zancaner, mais Dulce e Victor Geraldo Simonsen, que fizeram o governador Laudo Natel me promover, enquanto meu concorrente vinha com uma "bomba atômica": o apoio de João Baptista Figueiredo, então chefe do SNI.

Young da Costa Manso que me encontrou em Barretos, como juiz substituto e se lembrou do tempo em que judicara em Jundiaí. Garantiu que me carregara ao colo, pois se lembrava dos encontros de jundiaienses no cartório de Alceu de Toledo Pontes, à rua do Rosário. Adotou-me e à minha família. D. Vera e ele nos visitavam com frequência e tratavam meus filhos como netos. Tentou viabilizar um sonho meu: estudar na Itália. Impossível, já com mulher e quatro filhos.

Quanta gente foi se juntando a esses anjos, contribuindo para que eu recebesse muito mais do que mereço. Esta é a sensação que me invade: devedor insolvente de inúmeros seres humanos de primeiríssima qualidade. Sei que faltam muitos nomes. Tentarei resgatar outros, enquanto não me faltar a memória.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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