Opinião

Portas abertas

Basta de portas fechadas pelo poder que oprime


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Maria Cristina Castilho de Andrade
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Enquanto aguardo abrirem as portas da Catedral, observo a movimentação na Praça Governador Pedro de Toledo com seus andarilhos. Um ou mais se aproximam para pedir algo.

Domingo passado, um deles me abordou dizendo: "A porta da Igreja está fechada, mas a do Céu sempre aberta". Foi a partir disso que iniciamos a conversa. Comentei com ele que dissera uma grande verdade, pois Deus é misericordioso e deseja todos os seus filhos de volta. Entusiasmado, fez várias citações bíblicas, principalmente do Antigo Testamento. Possui uma certa restrição ao rei Davi, porque não enfrentou a guerra, enviou Urias e ainda ficou com a esposa dele. Mas concluiu que até a Davi Deus perdoou. Esclareceu que é autodidata e o número de livros lidos, citando alguns significativos da literatura brasileira. Fiquei impressionada com sua fluência na fala e argumentação.

Contou-me que nascera na zona de meretrício e que, quase em seguida, o colocaram numa lata de lixo. A mãe era de família de posses. Grávida, no final da adolescência, de um namorado que os pais não aceitavam e que desapareceu ao saber da situação dela, propuseram aborto. Não consentiu. Pelo avô ter influência na cidadezinha, encaminhou-a para uma casa de prostituição.

Já ouvi um fato semelhante das primeiras décadas do século passado. Uma senhora, que me era muito querida, relatou-me que acontecera com uma amiga dela. Grávida aos 15 anos, foi levada pelo pai para uma área de comércio do sexo. Ela desejava muito visitá-la, mas os seus não permitiram. Conseguiu, pelo menos, através de terceiros, enviar-lhe um enxovalzinho de bebê com um escrito sobre estar com ela de alguma forma.

Contou-me décadas depois esse fato, com o sonho de retornar à sua terra e reencontrá-la. Tentou procurá-la uma vez, porém sem sucesso. O tempo não fez passar a dor que sentiu pela situação da companheira.

Voltando ao moço. A mãe morreu no parto feito na casa de luz vermelha. Avisaram a família. Responderam que não tinham filha. Colocaram-no na lixeira. Enterram-na em uma vala destinada aos empobrecidos. Uma mulher das proximidades se condoeu e o assumiu na precariedade em que vivia. Aos 12 anos dele, ela faleceu vitimada por várias doenças. Firmou o pé nos atalhos. Mostrou-me as mãos calejadas. Detém-se em alguns lugares e trabalha por um tempo na lavoura, no entanto, não consegue ficar. Há dentro dele algo que o empurra para continuar daqui para lá como se estivesse à procura de um porto com o propósito de permanecer. Jamais procurou a família da mãe. Sabe quem é. Se não a aceitaram, imagine a ele que é a mistura dela com o pai desconhecido que odiavam. Faz o seu próprio caminho. Há nele sinais de alcoolismo que compreendo.

A porta se abriu, pedi licença e ele me falou para não me esquecer de que as portas do Céu estão abertas para todos.

Fiquei com a presença do moço. Portas da família fechadas. Sem revoltas ou amargor. Prosseguindo.

Na mesma semana, li sobre uma imagem de Nossa Senhora, na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma que, segundo informações, foi encomendada ao escultor Guido Galli, após a 1ª. Guerra, pelo Papa Bento XV, onde se encontra o título "A Rainha da Paz cuida do mundo". Alguém - desconheço quem seja -, pela mão espalmada e esticada da imagem, deu a ela o nome de Nossa Senhora do "BASTA", na perspectiva de que a verdadeira paz no mundo depende da derrocada do Império do Mal.

Na reunião com as integrantes da Pastoral da Mulher/ Magdala, refletimos sobre Nossa Senhora do "BASTA". Perguntei-lhes: "Basta o que para vocês?" Responderam com firmeza: agressões, falta de educação, corrupção, tragédias, desemprego, fome, estupro, pobreza, feminicídio, homicídios, aguardente, drogas, roubos, subornos, preconceitos, falta de esperança e de amor...

Creio que basta de portas fechadas pelo poder que oprime - todos os tipos de poderes; basta de mentiras acobertadas pelos tapetes da indiferença; basta de exclusão; basta de desrespeito... As portas do Céu, que estão abertas para todos, podem se fechar para os cruéis, vingativos e dominadores.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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