Opinião

Ações em prol do bem-estar e convívio

Usos compartilhados e serviços estão ganhando terreno


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Eduardo Pereira
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Uma sensação de alívio que nos traz as vitórias das ações populares, que, em São Paulo, resultaram nessa semana no tombamento da Chácara das Jabuticabeiras. Esse percurso está no artigo de 30 de outubro deste ano (https://www.jj.com.br/opiniao/2021/10/138707-a-falta-de-transparencia-dos-conselhos.html). Agora, podemos comemorar o reconhecimento desse recorte de área verde tão necessário para uma metrópole verticalizada antropofágica esfomeada que consome todo o espaço físico disponível sem limites, sem fronteiras e para as alturas, como a Capital.

A incrível façanha de outra ação anterior, que foi recentemente inaugurada com êxito e sucesso no uso e na contribuição com a beleza, fruição e civilidade para um lugar em declínio como se encontra o Baixo Augusta, mas que tem em contrapartida esse maravilhoso Parque Augusta, mostra que é possível salvar do desmonte e abandono um espaço fantástico, renovando todo um bairro que precisa de equipamentos e áreas ambientais para vida. E o resultado é reconfortante! Viva as iniciativas dos grupos de bairros que fazem frente às leis e às "conquistas dos planos diretores" que estão alinhados ao incorporador. Viram leis e essas são imutáveis. E não são, como sabemos.

Ter para oferecer no final da pandemia um parque para uso público teve resposta imediata. Como em Nova Iorque ou Berlim, os moradores ocuparam o gramado, praias no meio do denso concreto, com as pessoas tomando sol e aproveitando a demonstração de civilidade e prazer urbanístico invejável.

E, se o comportamento do mercado imobiliário está bombando, e dá uma pinta de que a economia está em movimento, o que é visível na direção oposta ao Baixo Augusta, nos Jardins, somente em volta da nova estação Oscar Freire pode se contar com nada menos do que 68 lançamentos de apartamentos com inúmeros atrativos de venda, contando sempre com inovações.

Arquitetos ali são valorizados, os projetos são além de autorais, são provocadores, estimulam o térreo a ter praças com usos comerciais e de serviços para seus moradores e integram, como numa praça, a calçada que se estende por todo o terreno, cortando caminhos e oferecendo alternativas e experiências urbanísticas muito bem-vindas.

Parece que esses novos conceitos de apartamentos menores, mas com usos compartilhados e serviços estão ganhando terreno e espaço na disputa pelos clientes, que respondem exigentes pelos novos itens de conforto e civilidade. Não é mais a cerca e muros altos que determinam a segurança desses novos lugares, a frequência maior propiciada e os usos coletivos ampliados pelos espaços abertos com paisagismo, bancos e rotas para fruir estão virando usuais.

Incríveis praças nos intervalos verticais dos edifícios, blocos de serviço, intercalados com as moradias, serviços de residence, e até de hotel para os novos moradores, ou que alugarão por um dia ou semana ou mês, num uso mais intenso do espaço com vantagens para o investidor, conforto e economia para o usuário. Sem contar que, para o setor hoteleiro, que em épocas de eventos em SP é impossível se hospedar. Esse momento da pandemia abre caminho o ressurgimento desses eventos que, represados e suspensos, agora vão voltar com tudo.

Por aqui, um retrocesso foi flagrante, as áreas de convivência do JundiaíShopping, que ofereciam confortáveis sofás e poltronas para seus clientes, e tinham nesse item de salas de estar um diferencial de venda, foram suprimidas. Não tem mais, talvez porque na falta desses lugares o uso tenha se tornado disputado e incompatível com o princípio de venda do shopping.

Sobre bons empreendimentos locais, os melhores não saíram do papel, aguardam decisões judiciais e outros nem poderiam ser aprovados, porque, inovadores, não se enquadram dentro das leis atuais. O que se vê são ofertas de lugares privados que oferecem um conforto de prisão dentro desses muros medievais e que estamos longe de começar a reverter demolindo-os e integrando esses "condomínios-guetos" à cidade e à vida urbanística de relacionamento social, cordial, de fruição e cidadania.

O desejo utópico de morar de maneira moderna, que está presente em empreendimentos atuais, está sendo ofertado a poucos quilômetros daqui, mas mas inversamente tão distante do que se oferta aqui. Nada animador!

EDUARDO CARLOS PEREIRA
é arquiteto e urbanista


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